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Nas asas de 2002

No Japão, quando algum ruído vem da porta, você se certifica primeiro se não é o terremoto fazendo um agito. Depois, levanta da cama, se estiver dormindo como eu estava naquela manhã de junho em Yokohama, e vai ver quem está batendo. Fi-lo. Era o Ronaldinho perguntando onde ia ser a gravação.

Meninos eu estava lá, eu estava no bojo do 2002 que ora se finda, e vi. Muitas portas se fecharam, mas outras, assim que abertas, traziam surpresas. Na hora podia se revelar apenas um engano fugaz, afinal o estúdio da Globo era num apartamento mais adiante. Mas eu sei, eu ouvi Paulinho da Viola fazer 60 anos em outubro no Teatro João Caetano. Eu sei que a vida não é só isso que se vê. Sei lá. É um pouco mais.

É fim de ano, todo mundo tem direito a rescrever suas fábulas e a minha aqui eu saco, com a permissão evidentemente do dono dele, Papai Noel. Quero contar uma nova versão da história da borboleta que bate as asas numa floresta do Quênia e aquele movimento de ar vai ter alguma conseqüência nos humores de um batuqueiro na Mangueira.

Eu abri a porta do quarto 1526 do Prince Hotel Yokohama e talvez fosse engano naquele momento, a entrevista era de fato no fim do corredor. Mas a vida não é só isso que se vê. Percebi dias depois. Era a borboleta batendo as asas e ajustando os passos de Ronaldinho para que no momento em que Rivaldo deixasse a bola passar sob suas pernas, ele estivesse no lugar exato e fulminasse o goleiro alemão. Não quero ser citado entre os heróis do penta. Apenas peço direito aos meus votos de esperança num ano melhor. Eis o que me traz aqui. Se não houvesse o engano na minha porta, talvez faltassem, talvez sobrassem passos e Ronaldinho não estivesse ali na entrada da área. Talvez a porta do Oliver Kahn não se abrisse mais adiante para que a nossa felicidade entrasse.

Pode parecer conversa típica de um ano em que as pessoas passaram lendo Quem mexeu no meu queijo, o livro mais vendido da temporada. Não importa. Nem tudo as mãos ousam tocar. Outras os pés recusam pisar. Sei lá, não sei, mistérios, e ministérios, sempre há de pintar por aí. Eu estava lá, neste 2002 esquisito que aos poucos se vai, e dele guardo suvenires disparatados numa gaveta em casa. Não sei se foi um ano bom, se foi ruim. Foi estranho, asseguro.

Se eu fosse resumir o ano numa cena, abrir-lhes-ia a tal gaveta. Tenho a cápsula de uma bala 38 que desabou em setembro na minha varanda (ui!). Também origamis coloridos que choveram sobre minha cabeça ao final da Copa em Yokohama (oba!).

Se eu tivesse que resumir o ano numa pessoa, escolheria Giselle Bündchen. Ela é linda (oh!). Usa peles (uh!)

Vi a pavorosa cara de 2002, a morte de Tim Lopes, a filha matando os pais. Vista de muito próximo assim, essa cara talvez ainda se pareça demais com a carranca do Oliver Kahn. Espero que seja outro engano e que, como a feiúra do alemão, todas essas desgraças mais adiante façam algum bem e sentido. Se o ano fosse um país, seria o Japão. Eu li Hiroshima, a reportagem de John Hersey com o relato das vítimas da bomba, o melhor livro de 2002. Em junho, entre um jogo com a Turquia e outro com a Bélgica, visitei a cidade. Totalmente reconstruída. Foi o que Ronaldinho fez com o joelho. Podre em janeiro, de ouro em julho.

Eu estive lá, no bojo de 2002 que ora se despede manquitolando, e carrego a alma cheia de motivos para afirmar: tem jogo. Entrevistei a Patrícia Pillar já com os cabelos reconstruídos, mergulhei um fim de semana no que era água escura e depois virou o piscinão de Ramos. Deveria ter tomado mais sorvete, andado descalço do começo da primavera ao fim do outono, dado mais voltas de carrossel e andado pelas montanhas sem tantos termômetros, guarda-chuvas e pára-quedas, coisas que sempre vi na internet e morria de rir. Mas em junho fui a uma cerimônia do chá em Hamamatsu. Desde então passei a observar melhor os valores da bondade, da paciência e da obediência aos rituais da vida. Ouço com mais atenção o farfalhar do mistério. Tive a impressão de que dias atrás uma borboleta bateu asas num jardim de pedras em Kyoto. Paciente espero. Vai fazer sentido em 2003.

[25/DEZ/2002]

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