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Uma menina do Brasil

Isabela tem 6 anos e é um encanto de beleza e inteligência. Dia desses, logo depois das oitavas-de-final (contra a Bélgica, há dois séculos, lembra?), sem mais nem menos como as crianças adoram fazer, perguntou à mãe: ''O que acontece se a gente for pentacampeão?'' As respostas ''a gente fica feliz'', ''o Brasil levanta a taça'', ''somos o país do futebol'' receberam decepcionado sorriso amarelo como resposta. Na sua primeira Copa de verdade (a outra, aos 2 anos, não valeu), ela achou sem sentido aquela mobilização toda à sua volta. Mas vieram as quartas, passou a semifinal... Hoje, Isabela está toda linda de amarelo, até acordou cedo (ela detesta), para torcer pela Seleção. De agora para sempre, uma menina do Brasil. E, Deus há de querer, pentacampeã.

Enquanto isso, Agripino, vira-lata que vive numa sossegada casa em Jacarepaguá, come o pão que o coisa ruim amassou. Alérgico a fogos, ele já liga o nome à pessoa - quando Galvão Bueno começa a ópera que compulsoriamente impõe aos ouvidos brasileiros a cada jogo da Seleção, o pobre Agripino se treme todo. Em linguagem canina, o locutor da Globo virou prenúncio de que os fogos estão chegando. Assim, Galvão ainda acaba no Discovery Channel.

O Rio criou sua versão da neve eterna, aquela no topo das montanhas em lugares frios - o engarrafamento eterno. Algumas encruzilhadas parecem permanentemente atravancadas, entre elas a Lagoa, do Corte do Cantagalo ao Rebouças; Nossa Senhora de Copacabana, nas vizinhanças da Santa Clara; Macedo Sobrinho, no Humaitá. Mas são, por assim dizer, fenômenos naturais, nascidos do excesso de gente que tenta se acomodar entre praia, montanha, floresta etc. Temos agora um engarrafamento artificial, inventado pelos czares do trânsito. Fica no encontro de Almirante Barroso, Presidente Antônio Carlos e Primeiro de Março, no Centro. Criou-se um cruzamento suicida, onde carros e ônibus são obrigados, pela desarrumação das setas, a fazer um X ultraperigoso. Para não bater, precisa dirigir melhor do que o Schumacher.

Ainda no Centro, as esquinas de pedestres da Ouvidor e da Rosário exibem, todo dia, momentos imperdíveis do marketing pós-moderno. Os camelôs ficam no meio do caminho, fazendo dos pulmões alto-falantes: ''Olha a camiseta do câncer de mama'', urram, infernais, para vender camisetas com o símbolo da campanha CONTRA a doença. Ache graça, mas não compre. Como as camisetas são piratas, o dinheiro não ajuda a prevenir coisa nenhuma.

Não é intenção desta Esquina debochar da tragédia cotidiana da violência no Rio. Mas tem a maior cara de piada a história dos traficantes comprando mísseis da Al Qaeda, divulgada com o estardalhaço habitual quando se fala da bandidagem por aqui. Imaginem - os crédulos, sobretudo - a conversa que se seguiu ao telefonema grampeado, com o interlocutor de Chapolim, o facínora engaiolado, providenciando ''aquela parada''. Segue um DDI para alguma caverna do Afeganistão: ''Osama, querido, manda meia dúzia de mísseis. Você aceita pré-datado?'' Não pode ser sério.

BRASIIIIIIIIIIIL!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

O colunista Joaquim Ferreira dos Santos está cobrindo a Copa do Mundo para o JB

[30/JUN/2002]

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