Reza o clichê que o Rio é mais carioca na praia, expressão solar - e deslumbrante - do estado de espírito que comanda a vida de quem vive aqui. Os habitantes desta terra têm o mar como bússola, dedicam a ele seu amor mais incondicional, são mais felizes diante do oceano - que, infelizmente, já foi mais limpo -, fazem festa até para a bobagem demagógica chamada piscinão. Tudo verdade. Mas quem for procurar à beira d'água a chave dos segredos cariocas vai se molhar em vão. O melhor Rio de Janeiro sobrevive no Centro.
A paisagem é meio paulista, reconheça-se, pela floresta de concreto dos espigões, que baniu o sol das vielas do século retrasado e faz sombra nas poucas avenidas sempre engarrafadas - além de ser a meca do, argh, trabalho, em plena cidade que tem a vocação do ócio. Delícia de contradição. Pois os interessados em decifrar esse bicho hospitaleiro não-desfrutável que vive aqui precisam pegar o Aterro ou o Rebouças ou a Perimetral e desembarcar na Cidade. Sem carro, porque não tem lugar para estacionar.
Os visitantes vão descobrir um mundo sortido, com a correria incessante das calçadas misturada à placidez de museus e bibliotecas; o ar imperial dos edifícios históricos ao lado dos modernosos prédios inteligentes; a sofisticação da Sete de Setembro vizinha ao caos da Saara, selva do comércio popular onde - nunca é demais repetir - judeus e árabes são vizinhos pacíficos, num lugar que só vira um inferno no verão, por escaldantes razões óbvias. Vale a pena um passeio.
Está aí, por sinal, um dos segredos. O Centro tem a carioca vocação da rua, do vaivém a pé, do esbarra-desvia da Alfândega e da Ouvidor, da Rosário e da São José, da Quitanda e da Primeiro de Março. E, claro, da Rio Branco. Para a experiência humana ser completa, falta apenas o ato de coragem que nenhum governante tem - fechar a Cidade aos automóveis, entregá-la definitivamente aos pedestres, devolver a eles o espaço que a megalópole arrancou e entregou às máquinas.
Que espetáculo seria (será?) o Centro fechado da Praça Mauá ao Obelisco, da Praça 15 ao Largo da Carioca! Além das exceções obrigatórias - ônibus, táxis, carros de serviço e, vá lá, oficiais -, só a fauna local. O reinado dos mauricinhos apressados de gravata, dos malas que entregam papelzinho na calçada, da barafunda dos camelôs. E dos malucos, que - já olhou em volta? - formam, longe, a tribo mais numerosa.
Só repara quem quer. É na Cidade que o Rio copia o melhor dos predicados de Nova York. Pode tudo, porque ninguém está ligando. A moda é não ter moda. Tampouco é lugar para muxoxos ou narizes torcidos, códigos de reprovação (e repressão) comuns no mundo cool dos condomínios, das academias de ginástica, dos bares-cabeça, dos restaurantes diferentes. No Centro - pergunte às mulheres - não fica zero-a-zero. Quer olhar, fique à vontade. É só não se importar de ser olhado.
O Rio pós-moderno, das grades e condomínios que aprisionam as crianças e o pensamento, dos guetos de pobres, ricos e remediados que tomaram até a areia da praia, tem muito a aprender com o Centro. Lá, não há rótulos de Zona Sul ou Norte, nem ninguém cultiva sonhos separatistas ou se envergonha do vizinho casual. Nenhum apartheid prospera na Cidade, porque ela é meio carrossel, quem estava aqui ainda agorinha já foi embora. Funciona que é uma beleza.
Foi lá que o Rio quase materializou o sonho de ser Paris (obrigado, seu Pereira, valeu a tentativa), e, às vezes, até se parece com Londres. Mas o melhor é que, por mais que tentem, jamais será Miami - graças ao Centro.
O colunista Joaquim Ferreira dos Santos está de férias.