A nova praia de Ramos fica numa baía muito distante da Ilha de Caras. Entre as boas vantagens oferecidas a quem freqüentá-la neste verão de 2002 está a de que não se corre qualquer risco de encontrar o Roberto Justus posando com (''qual é mesmo o seu nome, querida?'') novo air-bag louro. Finalmente um verão sem pose. Sincero. Sem patrocínio do creme Nivea no guarda-sol, nem das sandálias Grendene na geladeira de isopor. Pelo que se lê nos editoriais de moda, a tendência da temporada na Zona Sul será o sunquíni verde clarinho da Salinas. Rapazes, sunguinha Blue-man. Mas na new-wave-Ramos, uma tentativa carioca de resgatar e purificar o prazer de ir à praia, ninguém estará preocupado com detalhes tão pequenos de nós todos.
Será terminantemente proibido o tráfego de jet-ski, este pit-bull dos mares, dando-se preferência absoluta, com direito a ticket-bônus na barraca de milho verde, aos que circularem pelas águas límpidas da nova praia carioca a bordo de uma bóia de pneu preta. Que luxo! Era como aquele Rolls Royce funcionando de ''Lotação sete passageiros'' no subúrbio dos anos 50. Não há maneira mais confortável de se curtir uma marola. Quem proibiu? Que patrulha do bom gosto aboliu o bronzeador à base de urucum, aquele que ao passar já deixava a pessoa toda vermelhinha? Em Ramos poderá. Um real.
Aos homens que acabaram de degustar um churrasquinho maneiro - um real - na barraca do Ismael, o nosso Harrys Bar, será estimulado a higiene dos dentes com o uso de fósforos das marcas Olho, Pinheiro ou Beija-Flor. Quem havia proibido? Haverá concursos para o melhor travesseiro de areia, mais uma tradição de nossa antiga elegância praieira - como a de se esparramar na caça aos tatuís - que se perdeu. As mulheres da Zona Sul evitam o travesseiro. O corpo esticado reto na areia permite um maior arrebitamento do bumbum, essa obsessão das taliboas. Na new-wave-Ramos a obsessão será a curtição de ir ao mar com liberdade e brincar com ele. Do jeito que se lhe aprouver.
Está liberado, por exemplo, o tradicional mergulho que se fazia nos anos 60, proibido sabe-se lá por que ditadores do bom gosto - aquele com uma cambalhota ou salto mortal. O rapaz vem correndo da areia, dá dois passos dentro do mar e pimba! O prazer daquela pancada do corpo quente com a água só é comparável ao que virá depois: uma cerva casco escuro estupidamente gelada - um real - no Harrys Bar do Ismael. Quem pedir uma barriguda Black Leão ganhará autografado o livro Guimbaustrilho, de Nei Lopes.
Monitores da prefeitura estimularão a formação de pirâmides dentro dágua. Rapazes e moças em cima dos ombros uns dos outros. Todas essas delícias que a Zona Sul aboliu, com medo de sair mal na foto de Caras, serão cultuadas como resistência. Já não tiramos mais o chapéu quando passam as moças, na falta deles e na crença de que elas não mais o são. Ir novamente à praia sem imitar a Côte DAzur nos fará bem. A cara do Rio-verão não pode ser um bando de rinocerontes ao frescobol.
Desde que não incomode o próximo, desde que o som daquele rádio-funqueiro não enlouqueça quando tocar o novo sucesso do Bonde do Tigrão, tudo será na mais livre e bárbara paz. Espera-se que as moças, na ausência da Glorinha Kalil definindo o que é chique, também fiquem à vontade para a saudável prática de se lançar ao besunto do corpo, como se bifes à milanesa fossem. O óleo de urucum gruda melhor a areia que, como se sabe, na new-wave-Ramos está livre de qualquer pestilência. A areia branquinha, o óleo vermelho e a pele bem morena vão dar um jogo cromático arrebatador nas gatas. Nada que saia na capa da Caras Trincadas. Mas que praião!
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