Sábado passado, 200 mil pessoas foram à cidade de Brighton, à beira do Canal da Mancha, para assistir ao show de um DJ. Um morreu de enfarte. Outra, esmagada. Cem deram entrada no pronto-socorro. O nome do DJ é Norman Brook, mas ele é mais conhecido como Fatboy Slim. Como a maior parte dos ingleses, ou da humanidade entre os 30 e 40 anos de idade, ele gostaria, na verdade, de ser negro americano, ou melhor dizendo, afro-americano. Ele toca toca-discos. Aquela história: faz com o vinil aquilo que a nós, torcedores do Ella Fitzgerald Futebol e Regatas, nunca nos ocorreria fazer: arranhar e alti-decibelar adoidado os graves. Durante horas, ele repete a batida ti-dum, ti-dum, ti-dum. Os apreciadores do gênero, feito boizões hipnotizados, acompanham o ritmo com inexpressão facial, a pata direita socando manso o ar e uma vaga moção das cadeiras. Acreditam-se em delírio mugio-musical. Se o mais vagabundo dos bateristas, o mais desclassificado dos aspirantes a bateria da Mocidade Independente, desprezaria o vil espetáculo decibelado pelo dê-jota (vamos traduzir essas jostas, rapaziada!) Garoto Gordo Magrela, imaginem o que não teriam a dizer a respeito Buddy Rich ou Gene Krupa.
Jornais ingleses, muito sérios, noticiam eleições na Bolívia. Dão folha corrida dos candidatos, explicam as questões em jogo, apontam para os favoritos do povo e da CIA, essas coisas todas. Em suma, serviço completo sobre esse pequeno gigante, logo aí do lado, sempre prestes a despertar e mostrar ao resto da América Latina, como um malandro descendo o morro, os documentos. Olha, eu tenho até pena dos peruanos se a coisa correr para o lado de um camarada cujo nome e intenções agora não se me ocorrem.
Para continuar na América do Sul, lugarzão sempre bom para umas gostosas gargalhadas, informo que a coqueluche para este verão (que, ao que parece, finalmente chegou) é mesmo vosso irrequieto sub-continente. Notícia que não acaba mais nos jornais sobre a ''situação'' no Paraguai, como se lá já tivesse tido outra coisa que não ''situação''. Especulação terrível sobre a possibilidade do ''estado de emergência'' que lá impera se espalhar por outros países da região, contaminando assim México, Costa Rica, República Dominicana e até mesmo o hoje pacificado Panamá. Cheguem pra lá, paraguaios! Virem esse canhão para outras bandas! A Oasis, por exemplo. Ou Destiny's Child.
Leio em jornal brasileiro, pela Net, que Anthony Garotinho acha que celulares em presídio ajudam a combater o crime. Continuo deslumbrado com as maravilhas da tecnologia. Passo os olhos, todos os dias, em jornais virtuais brasileiros. Nada, mas absolutamente nada, faz sentido para mim. Desconheço as pessoas, não me dão as coordenadas de coisa alguma. Desejam, quero crer, que eu esbarre no iceberg, afunde e morra afogado. O noticiário é o equivalente perfeito à house ou techno, ao funk ou rap, ao hip ou hop. No entanto, é minha língua. Dela sou feito e ela continua a me fazer, até onde pode e consegue, a cabeça. Penso nela, tenho sonhos e pesadelos nela. Nela meu Machadinho e meu Drummond. Nela me refrigero nos dias de calor, nela me agasalho no inverno. Insensível a mim, talvez irritada com minha partida, ela segue em frente, cada dia mais incompreensível. Eu não falo a linguagem do sorvete ou do sobretudo de lã, mas com eles me entendo, pois deles dependo. Em silêncio. O português do Brasil chega logo me dando um esporro. Como se eu tivesse derramado o refresco de groselha no balcão. Assim feito essa gente toda está aprendendo, nestes dias turbulentos, eu comprei ações do português na alta e delas me desfiz na baixa. Me queimei. Não adianta nada um jornal paulista chegar e me dizer que Alan Greenspan prevê a recuperação nos Estados Unidos. Vamos abrir o jogo: 90% de tudo que se passa aí é notícia de agência traduzida para uma língua inventada quase que 24/7.
Tão vendo? 24/7. É um exemplo. Os americanos que começaram com essa idiotice. Aqui na Inglaterra já chegou. Tradução é 24 horas por dia, 7 dias por semana. Quer dizer, o tempo todo. As pessoas já passaram a falar e não só a escrever. Um ministro-adjunto para a Agricultura disse, outro dia, que seu departamento ''se ocupa do problema vinte e quatro sete''.
Mesma coisa com o 11 de setembro de 2001, data do atentado aquele. Os americanos dizem e escrevem 11/9, para não perder tempo, uma vez que há muita gente da Al-Qaeda a ser presa e executada, muito fogo amigo a ser generosamente distribuído. Isso porque, apesar de dizerem 11 de setembro, eles escrevem o número do mês antes, ao contrário de nós, ingleses e brasileiros, que, para imitá-los, comme d'habitude (sou de uma época em que imperavam outras imitações), diríamos e escreveríamos 9/11.
Que nomes estranhos têm os brasileiros. Ciro Gomes, José Serra. Aqui também há políticos de nomes estrambóticos. Nicholas Winterbottom e Paul Boateng são dois que me vêm à mente de estalo. Também não vejo motivo para Serra, um candidato à Presidência do Brasil, ter passaporte italiano. Vocês me confundem tanto a vida.