Ainda tem Engov aí no Brasil? Me manda? Menino, eu estou de ressaca até hoje. Foram dois dias e duas noites comemorando a vitória das forças morais coalizivas
sobre as fraquezas talibânicas de caracteres. Parece um sonho onírico! Despertamos do pesadelo terrorístico para ver surgir - possante e bramante - um Afeganistão como aquele que escolheríamos para nossas tias habitarem e serem habitadas: cercadas de doces bodes e homens rudes recitando alegorias. Nossas tias inteiramente nuas! Saltando pelas cavernas e atirando pedras na escuridão só para ouvir o barulhinho do eco. Sem burkas ou máscaras! Tal como Alá as fez! Nascidas para o amor!
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Deitada sobre o rude solo afegão, tia Fátima lentamente ergueu o vestidinho branco plissado. Miltão, o miliciano do amor, desabotoou a braguilha e ameaçou penetrá-la de um só golpe, quando um rouxinol ergueu para os céus o seu canto, como se, com ele, louvasse a vitória final da luz sobre o obscurantismo. Ambos, Milton e Fátima, detiveram-se em sua amorosa empreitada para, juntos, curtirem o fenômeno. Será aquilo uma lágrima no olho azul cerúleo de Fátima? Será aquilo uma Kalashnikov no bolso das calças de Miltão ou apenas o resultado de suas emoções incontidas?
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Mas não é nada disso que eu quero dizer, embora escrever seja gostoso e, cá entre nós, dá um certo frisson ir botando e botando no espaço virtual essas sacanagens. A pornografia é sempre um mano a mano. O que também não é o que eu queria dizer. Vitória, pomba!, vitória em solo alheio menos de três meses depois do holocausto mercantil no sul de Manhattan. Com essa ninguém contava, né mesmo? Liderado por Bush, o mundo ocidental viu ruir o castelo de castelo de cartas marcadas dos fanáticos muçulmanos do Talibã, os mesmos que deram refúgio e guarida à nefanda rede da organização Al Quaida e seu mais ardoroso discípulo, o abominável Osama bin Laden.
Do nosso lado, morreu um só marine. Tal de Mike. De enfarte do miocárdio. Todas as guerras deveriam ser assim: matando um só marine. ''E os 1.500 afegãos inocentes?'', grita-me uma multidão descontente. Numa guerra não há inocentes, retruco com minhas quatro estrelas no ombro. Agricultores, mulheres e crianças tendem a perder, entre outras coisas, a inocência, assim que B-52 começa a despejar bomba de sei-lá-quantas toneladas em cima. É desses beicinhos que o mundo tão bem sabe fazer.
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- Não, Milton, assim não!
- Ora, Fátima, deixe-te de fingimentos. Você está gostando!
- Não - De jeito nenhum
- Oh! Ai!
- Agora - Assim - Isso - Vamos!
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A vitória, a comemoração da vitória, rápido. Bem, primeiro nós fomos, conforme hábito secular, nos jogarmos nas fontes da praça Trafalgar. Lá bebemos cerveja em lata e beijamos desconhecidos e desconhecidas na boca, embora - sinal dos tempos - muitos e muitas tenham tentado cobrar 5 libras (uns US$ 9) pelo privilégio. Depois, fomos pelo Mall até o Palácio de Buckingham aguardar aceno de mão e sorriso forçado de Sua Majestade. Cantamos todos o God save the queen e algumas composições menores de Elgar. Depois, saímos por aí na louca ventura de viver ausência de bombardeio B-52 sobre o Afeganistão.
Agora, à Somália! Ao Sudão! Ao Iraque! Ao Iêmen! O gosto pela vitória pega! Nada mais poderá deter as forças do contra - e do anti-terrorismo esclarecido! Israel, como quem berra ''Primeiro a piar!'' ao ver o balão, está despachando uma média de quatro ou cinco ''dimenores'' por semana na luta desesperada contra os insensíveis e insensatos homens-bomba que, além do mais, sequer pagam o preço da entrada na discoteca.
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Nisso tudo, além da brava rapaziada da Aliança do Norte (mas também podem nos chamar de Frente Unida), não nos esqueçamos dos grandes heróis dos últimos três meses: não fossem eles e cadê a inspiração? Refiro-me aos bombeiros nova-iorquinos, com suas baitas botas, seus brutos chapelões, suas mangueiras frondosas. Estão em toda parte. Entregando prêmios a roqueiros, discursando em galeria de arte, sorteando vencedor de concurso de travesti. Sua ubiqüidade, no entanto, não os impede de apagar qualquer novo incêndio que por acaso surja em Manhattan, ou de nele morrerem em pencas. A Marchinha do bombeiro americano deverá ser gravada por Wando e tudo indica que vai pegar no Carnaval. Salve a mangueira!, conforme diz o breque.
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- Não, Milton, não quero que você me veja assim -
- Que bobagem, tia Fátima! Isso é a coisa mais natural do mundo. Você estava com a cabecinha cheia dessas bobagens que os talibãs ensinavam.
- Sinto que apenas começo a viver, Milton!
- Claro, claro. Agora, vem cá, vamos fazer um negocinho jóia aqui.
- Não. Não - Por favor - Eu te suplico - Eu - Eu -
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Um organismo internacional revelou, na semana passada, que o brasileiro é o camarada no mundo que menos entende aquilo que lê. Isso me parece uma idiossincrasia das mais buriladas por aqueles que não agraciam o mesmo teor de vantagem na hora - e isso me parece óbvio - de escrever, já que uma coisa que são é carne do mesmo osso e unha de idêntico cão.