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Somos todos adúlteros?


Você acredita que o escritor George Simenon fez sexo com mais de 2.500 mulheres no decorrer dos seus três casamentos? Essa é uma história bem conhecida, só não sei se é verdade...

Homens e mulheres flertam, se apaixonam e namoram acreditando terem encontrado o verdadeiro amor, para com ele ficar a vida inteira. É comum ouvirmos homens e mulheres defendendo a fidelidade conjugal, no entanto, poucos se contentam com um único parceiro sexual, mesmo enfrentando altos riscos. O adultério sempre foi punido com crueldade pelo mundo afora: açoitamento público, decepação do nariz e das orelhas, morte por apedrejamento, fogo, afogamento etc. Não é incrível que os seres humanos, ainda assim, se envolvam em aventuras extraconjugais? Mas a infidelidade acontece a toda hora, em todos os lugares, com as pessoas comuns e com as famosas.

Desde a infância foi ensinado à mulher que deveria ter relações sexuais apenas com o marido. Isso fez com que se sentisse culpada ao perceber seu desejo sexual por alguém que não fosse ele. A dependência econômica também foi uma motivação importante da tendência monogâmica presente na nossa cultura. O marido jamais admitiria uma infidelidade e dessa forma a mulher não teria como sobreviver. Com a pílula anticoncepcional e a emancipação feminina, as coisas começaram a mudar. O número de mulheres infiéis tem se igualado ao dos homens e o adultério começa cada vez mais cedo para ambos os sexos. Uma pesquisa realizada na Inglaterra, dirigida às mulheres que trabalham fora, comprova que há pouca diferença entre os sexos no que diz respeito às relações extraconjugais. Dois terços das casadas ou com companheiro estável responderam ter cometido adultério. Na ocasião da entrevista, quase 50% das mulheres confessaram estar envolvidas num caso, e 72% garantiram que era melhor fazer sexo com o amante.

Entretanto, o adultério não é nada simples. O conflito entre o desejo e o medo de transgredir é doloroso. A fidelidade não é natural e sim uma exigência externa; numa relação amorosa estável as cobranças de exclusividade são constantes e aceitas desde o início. Com toda a vigilância que os casais se impõem, a fidelidade conjugal geralmente exige grande esforço quando a pessoa se sente viva sexualmente e não abdicou dessa forma de prazer.

Assim, as restrições que muitos têm o hábito de estabelecer por causa do outro ameaçam bem mais uma relação do que a infidelidade. Mesmo porque reprimir os verdadeiros desejos não significa eliminá-los. Quando a fidelidade não é espontânea nem a renúncia gratuita, o preço se torna muito alto e o parceiro que teve excessiva consideração tende a se sentir credor de uma gratidão especial, a se considerar vítima, a se tornar intolerante, inviabilizando a própria relação.

W. Reich afirma que nunca se denunciará bastante a influência perniciosa dos preconceitos morais nessa área. E que todos deveriam saber que o desejo sexual por outras pessoas constitui parte natural da pulsão sexual. Provavelmente diminuiriam as torturas psicológicas e os crimes passionais, e desapareceriam também inúmeros fatores e causas das perturbações psíquicas que são apenas uma solução inadequada destes problemas.

Apesar dos conflitos, medos e culpas, da expectativa dos parentes e amigos, dos costumes sociais e dos ensinamentos estimularem que se invista toda a energia sexual em uma única pessoa - marido ou esposa -, homens e mulheres são profundamente adúlteros. Será que não está na hora de deixar de negar o óbvio e começar a questionar se fidelidade tem mesmo a ver com sexualidade?


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[19/FEV/2005]


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