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Amor de carnaval


Lu, uma dentista de 34 anos, está separada há seis. No último carnaval ela viveu uma experiência inusitada, que a surpreendeu pelo impacto da emoção que sentiu e que nunca conseguiu esquecer: ''Fui a um baile de máscaras. Ninguém sabia quem era quem. De repente comecei a dançar com um cara que me pareceu interessante. Tinha um jeito muito gostoso de me tocar. Só sei que lá pelas tantas fomos para um canto meio escondido do jardim. Fizemos um sexo maravilhoso ali mesmo. Acho até que o melhor que já fiz na vida. Sinto um calafrio só de lembrar. Não sei o nome dele e o mais incrível ainda é que nenhum de nós dois tirou a máscara.''

Muitos se chocam com a experiência vivida por Lu. Mas é impossível não perceber a sensualidade solta e a excitação brilhando no olhar das pessoas durante o carnaval. Desejo de beijar, de fazer sexo, mas com muita urgência; afinal, o tempo é limitado. De onde vem a liberdade para muitos se tocarem e se sentirem, mesmo sem se conhecerem? Para onde vai o medo de sexo, suas normas e regras, que durante todo o ano contêm e limitam o prazer? De onde surge tanta ousadia?

A idéia deixa de parecer absurda se pensarmos que Darwin, num estudo em 1867, concluiu que a alegria, a felicidade, a tristeza, a surpresa, o medo e muitos outros sentimentos humanos eram expressos universalmente com gestos herdados de um passado evolutivo comum. Por que não incluir o desejo premente de fazer sexo que se observa no carnaval, com todos os seus códigos de aproximação entre os parceiros?

Mas nem todos aceitam a supremacia biológica. Estudos antropológicos procuram demonstrar como a cultura influencia o comportamento, diversificando em muito a humanidade, de acordo com o lugar e a época em que se vive. Tudo indica que a liberação do sexo no carnaval seja apenas uma questão cultural. Confirmando o refrão da música que diz: ''Vou beijar-te agora/ não me leve a mal/ hoje é carnaval'', agora o amor é sem barreiras e pode-se beijar à vontade: ninguém leva nada a mal.

Amor e sexo são impulsos totalmente independentes e pode haver prazer sexual pleno totalmente desvinculado das aspirações românticas. Aliás, os homens sempre souberam disso e nunca se furtaram às relações sexuais episódicas com parceiras fortuitas. Alguns alegam surgir uma sensação de vazio após um encontro desse tipo. Mas isso não tem nada a ver com o sexo, se ele foi prazeroso, e sim com o fato de se ter esperado algo além do sexo. De uma transa sexual com alguém que mal se conhece e de quem não se pretende nada mais além da troca de prazer, só se podem esperar algumas horas muito agradáveis e ótimas lembranças.

O carnaval é, para muitos, um período de trégua. A busca incessante do amor idealizado ou a luta por sua manutenção cede espaço para o exercício da sexualidade longe de qualquer restrição. No entanto, homens e mulheres só serão sexualmente livres quando reformularem sua visão do amor, deixando o sexo exclusivamente a serviço do prazer, e não mais precisarem da desculpa de que só hoje tudo é permitido, porque é carnaval.


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[05/FEV/2005]


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