Clarice, 34 anos, é engenheira, separada, com dois filhos pequenos. Semana passada, seu diretor na empresa lhe comunicou que durante um ano ela deverá viajar várias vezes aos Estados Unidos, num programa de aperfeiçoamento profissional. ''Sei que essas viagens vão ser muito importantes para minha carreira. Conversei com meu ex-marido e resolvemos que as crianças vão morar com ele a partir de agora. Ele é bastante presente, superligado nos filhos. Mas será que vai dar conta de cuidar de tudo sozinho?''
Sem dúvida, a família é a mais antiga de todas as instituições humanas porque é a mais flexível. Nos últimos 30 anos a família nuclear - pai, mãe e filhos - constituída a partir da Revolução Industrial, no final do século 18, foi se transformando radicalmente. Nessa época, quando os pais foram trabalhar nas fábricas e escritórios, se distanciaram dos filhos. A mãe passou a ser a única responsável pelos cuidados do lar e da criança. Agora, na relação com os filhos surge um novo pai, com atitudes até então ignoradas pelo homem. Alimenta, troca fraldas, dá banho e passeia sozinho com seus filhos. Dois mil meninos australianos da escola primária, interrogados sobre sua atitude em relação ao mundo que conheciam, revelaram a transformação: definiram o pai como ''a pessoa que cuida da gente''.
Mas as mudanças não se limitam à aproximação entre pai e filhos. Com o grande número de separações e novas uniões, filhos de casamentos atuais e anteriores passam a conviver sob o mesmo teto. E quando a sociedade começa a absorver a idéia da mãe solteira, que ignora a importância da figura do pai, os homens mostram que, sozinhos, também podem criar muito bem os filhos.
A inglesa Margareth O'Brien, que conduziu uma pesquisa muito detalhada com 59 pais londrinos com a guarda de crianças de 5 a 11 anos, cita esta confidência de um deles: ''Devo referir-me a mim mesmo como a uma 'mãe', porque não há palavra para designar os homens que fazem o que eu faço''.
É claro que, por fugir ao modelo tradicional, não faltam críticas a essa nova forma de organização familiar. Entretanto, quanto à ausência da figura paterna ou materna, surgem novos questionamentos. Concordo com quem afirma que o fundamental para a criança é se sentir amada, respeitada e valorizada, e que em nenhum momento aparece a necessidade de duas presenças físicas, uma masculina e outra feminina, para que isso ocorra.
Como a pesquisa do sociólogo americano Scott Coltrane documenta, os homens mais jovens, principalmente, estão começando a descartar as definições estereotipadas de paternidade como um papel distante, provedor de disciplina, em vez de maior envolvimento com o cuidado da criança, geralmente classificado de maternagem. Ao contrário do que prega a tradição cultural, a maternagem - cuidados cotidianos proporcionados à criança, acompanhados da consciência da responsabilidade direta por ela - não tem sexo, mas também não tem nada a ver com os poucos minutos por dia que o pai tradicional dedica a seus filhos.
Alguns homens romperam na frente com os padrões estabelecidos. Pouco antes de ser assassinado, John Lennon declarou publicamente: ''Gosto que se saiba que, sim, cuido do bebê e faço pão, que eu era dono de casa e me orgulho disso. ''E se isso fere o papel masculino, ele pergunta: ''Não está na hora de destruirmos a ética do macho?... A que nos levaram todos esses milhares de anos?''