O batismo feito pelo sempre irreverente e um tanto rude governador do Paraná, Roberto Requião, quando da primeira vez em que o superávit primário superou o acertado pelo governo com o FMI vai ter eco. Apesar das expectativas criadas interna e externamente, o Brasil e país algum entre os emergentes vão conseguir tão cedo que o FMI reveja as regras de cálculo para o superávit primário, excluindo investimentos, nem mesmo os imprescindíveis à infra-estrutura. Interlocutor de técnicos do fundo, o professor de Finanças Públicas da UnB, José Matias Pereira, deles já ouviu que a direção, ainda que sob novo comando de um espanhol, Rodrigo Rato, não conhece a expressão tão brasileira mas acredita na tese de que por onde passa boi passa boiada. Sem refresco, a decisão de aumento do percentual do superávit sobre o PIB pode voltar a unir gregos e troianos contra a política econômica do governo. A rebelde Luciana Genro, do PSOL, já organiza protestos com uma ONG feminista e os próceres da oposição prometem ficar roucos de reclamar, nem bem refeitos das campanhas municipais. A conta é ruim. O 0,25% a mais no superávit, lembra Matias Pereira, significa R$ 4 bilhões, quase a metade do que o país tem para investimentos ano que vem. Descartando a pecha de profeta do apocalipse, o professor mostra que se correr o bicho pega e se ficar, o bicho come:
- Elevar o superávit tem como fundamento aumentar a credibilidade junto a credores. Mas o investimento no Brasil está caindo. Quem tem dinheiro no mundo corre para países de menor risco.
Para completar, nossa dívida externa é nada menos que duas vezes e meia nossas exportações.
Antes tarde
Nossa mais bonita e jovem primeira-dama, Maria Tereza Goulart, vai hoje à Secretaria da Comissão de Anistia no Ministério da Justiça pedir reparação ao governo federal. A Stelo Advogados requer declaração de anistiados para ela e Jango. O pedido de indenização - que cita não ter havido luto oficial pela morte do ex-presidente - é de R$ 100 mil mais a reposição das pensões que a viúva deixou de receber por dez anos.
Ataque rápido
A queda de renda do trabalhador (7,2%), a maior desde 1997, e os 8,5 milhões de desempregados, dados divulgados ontem pela Pnad, abriram o verbo do líder do PFL, José Carlos Aleluia (BA), que classifica o crescimento de bolha, citando a queda de investimentos desde que o PT assumiu o poder:
- Falta competência a este governo para promover um crescimento sustentado da economia. Fica apenas no soluço.
Apoio continua
O ministro das Comunicações, Eunício Oliveira, discorda da necessidade de uma reunião do PMDB depois das eleições para avaliar a posição do partido em relação ao governo, defendida pelo presidente Michel Temer (SP).
- Existe decisão do diretório nacional de apoio ao presidente Lula e não há sinal de mudança no partido, onde o grupo de oposição é minoritário.
Nome em vão
Impressionada com cartazes de candidatos que anunciam seu apoio sem consultá-la, como verificou em suas andanças pelo estado, a deputada Denise Frossard (sem partido-RJ) vai interpelar a todos judicialmente. Os primeiros são Paulinho, de Araruama, e Girão, do Rio, candidatos a vereadores e ilustres desconhecidos para a juíza.
Dificílimo
O Simples não pegou. Das 96 mil empresas que escolheram o modelo, até ontem só 10% haviam quitado a primeira parcela de suas dívidas com a Receita. O mais provável é que, se não conseguem pagar nem o menor imposto, acabem indo para a informalidade. O Sebrae, que estima serem mais de 1 milhão as pequenas e micro em condições de aderir ao sistema, tentava uma prorrogação do prazo do acerto, que expira hoje. Até tarde da noite, não havia sensibilizado o Leão.
A cada legislatura, sempre uma esperança
Hoje é dia delas, secretárias, braços direitos que, ao contrário de ex-mulheres, raramente revelam segredos que compartilham com os que dividem, muitas vezes, anos de suas vidas. Lygia Camargo começou no Senado há 41 anos. Atendeu a políticos tão diversos quanto os Robertos Requião e Campos. Lembra ainda seu primeiro chefe, Benedito Valadares:
- A imagem dele era meio de bobo. Na verdade, era muito inteligente. E culto. Só lia livros em francês.
Lygia enfrentava tarefas árduas como liberar um caminhão de bois na divisa entre Minas e São Paulo para Orlando Zancaner. Fazendeiro muito rico, para Lygia foi fenômeno, capaz de enfrentar Filinto Muller e ligar para Petrônio Portela com um seco "desça aqui". Sobra carinho para todos, incluindo os biônicos, mas a secretária vê uma piora nos tempos. Nem só porque a chapelaria do Congresso não serve mais para guardar chapéus:
- As pessoas tinham outra bagagem. Você convivia com gente da estirpe de um Santiago Dantas, um Gustavo Capanema. Cada senador tinha uns cinco funcionários, no máximo. Hoje são mais de 30, a maioria de fora da Casa. Éramos homenageadas, respeitadas, hoje eles nem sequer nos dão bom-dia. Aumentou também a quantidade de quem não presta. Antes, era um ou outro. Mas eu continuo adorando o Senado e, a cada eleição, renovo a esperança de que o nível vá sempre melhorar.
MEMÓRIA
No dia de ontem, há 40 anos, o jornal Primera Plana publicou pela primeira vez a história em quadrinhos com Mafalda, criação de Joaquim Lavadio, o "Quino". Irreverente e inteligente, ela criticava a sociedade de consumo, as guerras, o lucro capitalista e a moral burguesa Em 1975, "Quino" parou de criar a personagem. Sucesso na Europa e por aqui, deixou saudades.
Fez 12 anos, ontem, o impeachment de Fernando Collor, aprovado na Câmara por 441 votos contra 38, com uma abstenção e 23 ausentes. Primeiro presidente eleito diretamente depois de 29 anos e o mais jovem ocupante do cargo, Collor estava ontem em Alagoas, fazendo campanha com o filho, candidato a vereador.
Na data de hoje, há 17 anos, um aparelho de radioterapia desativado, roubado e vendido a um ferro-velho, causou um acidente nuclear por contaminação radioativa de césio-137, em Goiânia. Foram atingidas 250 pessoas e quatro morreram. A menina Leide das Neves, primeira a morrer, deu nome à fundação criada para atender às vítimas que, até hoje, não foram indenizadas.
Com José Fonseca Filho e Luciana Rangel