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O passado obriga


Seu Ignácio e dona Itália conseguiram criar 10 filhos na cidade gaúcha de Caxias do Sul ganhando um salário mínimo cada, ele em uma fábrica de carrocerias, ela em uma cutelaria. Para auferir renda extra, Ignácio trabalhava à noite como vigilante, ajudado pelos filhos mais velhos, quando voltavam da escola pública. Um deles usa a dura realidade familiar como uma das justificativas para lutar por aumento maior do mínimo que o determinado pelo presidente quase xará do pai, com a aprovação da cúpula de seu partido. É o vice-presidente do Senado, Paulo Paim (PT-RS), que entregou à Comissão de Assuntos Econômicos requerimento solicitando criação de uma Comissão Geral no Senado para analisar a viabilidade de um mínimo acima dos R$ 260. Foi ontem, logo após a Executiva do PT ter fechado questão aprovando o valor. Hoje, o senador conversa com 15 parlamentares do PT. Se aprovada, a comissão convida ao debate ministros, empresários, economistas e sindicalistas.

Paim relaciona, entre outras, as seguintes fontes capazes de elevar o piso aos US$ 100: aumentos de R$ 6,75 bi na arrecadação da Cofins e de 2,6% reais na da Receita Federal; superávit primário acima da meta de 4,25%; imóveis do INSS alugados a preço vil ou abandonados que renderiam mais de R$ 25 bi. E apresenta, como defesa, cálculo do Dieese: mais R$ 60 no mínimo significariam R$ 11,5 bi a mais na economia por ano ou 1,8 milhão de empregos.

E desteme

O senador, que além de pobre nasceu negro na região em que dizem ser maior a discriminação racial, despreza, do alto de seus 1,2 milhão de votos, eventual punição do partido a que sempre pertenceu:

- Se o PT tentar me expulsar, nem me defenderei. Não há força que mude minha disposição.

O futuro condena

Do deputado Chico Alencar (PT-RJ) de olho nas eleições municipais, citando o economista John Keynes:

- O governo levou dois meses para decidir o salário mínimo de R$ 260. A Executiva do PT fechou questão em duas horas. Com aumento anual real similar aos 1,2% deste ano dobraríamos o poder de compra do mínimo - nossa promessa de campanha - não em quatro, mas em 40 anos. E a médio prazo estaremos todos mortos...

O presente anima

O ministro das Comunicações, Eunício Oliveira, deputado do PMDB-CE, está disposto a se licenciar e voltar à Câmara, só para votar e ajudar na coordenação da votação da emenda do mínimo. Quer evitar que o governo sofra outra desagradável surpresa, como a da MP dos Bingos.

Mas nem tanto

O deputado Eliseu Padilha (RS), tido como campeão em estatísticas do PMDB, prevê racha no partido na bancada governista na votação do mínimo. Dos 72 peemedebistas integrantes, contabiliza que 40 votarão contra. No também aliado PTB, o presidente, Roberto Jefferson (RJ), crê em maior fidelidade - dos 53 petebistas, no máximo 15 devem deixar o governo na mão.

Na telinha e na telona

No encerramento da Conferência de combate à pobreza do Banco Mundial em Xangai, hoje, um vídeo apresenta o programa brasileiro de crédito fundiário que, a partir de 2002, recebeu R$ 42,5 milhões da União e R$ 66,1 milhões do Banco Mundial, beneficiando 8.877 famílias. Também hoje, estréia na rede inglesa BBC uma série de documentários sobre a vida de assentados no Brasil.

Na vida real

O Movimento dos Pequenos Agricultores considerou insuficientes os R$ 7 bilhões para o Plano Safra que o ministro Miguel Rossetto contrapôs à sua reivindicação de R$ 20 bi. E também as 15 mil novas casas rurais prometidas pelo ministro Olívio Dutra. Hoje, na Secretaria de Agricultura Familiar, pedirão, ''pelo menos'', que analfabetos passem a ter acesso aos financiamentos públicos.

Minas em festa

Eduardo Azeredo (PSDB-MG) presidiu ontem parte da sessão do Senado, quebrando jejum de três décadas de mineiros na função. O último foi Magalhães Pinto, em 1976. Desde então, só deu nortistas e nordestinos.

Câmara em guerra

Requerimento de Wladimir Costa (PMDB-PA) à Comissão de Fiscalização Financeira sobre gastos do Palácio do Planalto com bebidas alcoólicas provocou a ira dos governistas. ''Falta de respeito'', bradou José Carlos Araújo (PFL-BA). Ao ceder, o deputado que confessa adorar caipirinha, declarou:

- Retiro para atender os amigos de copo do presidente.

Quase apanhou.

Jogo rápido

  • A Secretaria Especial de Aqüicultura e Pesca (Seap) e o Banco do Nordeste (BNB) lançam hoje, em Fortaleza, três programas de crédito (Pescart, Propesca e Proaqua) que vão liberar R$ 600 milhões para projetos na área da pesca artesanal e industrial e aqüicultura do Nordeste. O ato será realizado às 10h, na sede do BNB.

  • Acontece hoje e amanhã o 2° Congresso Internacional de Biotecnologia (BioBrasil 2004), promovido pela Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais com o Instituto Euvaldo Lodi e a Fundação Biominas. Na primeira edição do evento, em 2002, cerca de 600 empresários, pesquisadores e especialistas de todo o mundo participaram.

    Com José Fonseca Filho e Bruno Arruda


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    [27/MAI/2004]


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