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A cara do Brasil


BELISA RIBEIRO

A igreja já cheia de fiéis humildes e anônimos que foi sendo ainda mais lotada por gente importante, políticos principalmente, não permitiu que Dona Kyola, a homenageada com a missa de sétimo dia, fosse apenas a mãe do Sarney. O ex-presidente, semblante transtornado de órfão recente lhe roubando qualquer estatura de autoridade, foi sendo cercado por uma reverência múltipla a ponto de mostrar a cara do Brasil. O beijo da preta velha na chegada, o pequeno mas solene discurso, logo na entrada, de Antonio Carlos Magalhães, ainda com a morte do filho no peito - figuras do país de antes - se misturavam a atores novos no cenário histórico do país. Pessoas que chegaram ao poder contra o que representam Sarney e ACM, com o discurso prometendo às pretas velhas mais que afagos eventuais. Roseana Sarney leu na liturgia um texto do antigo testamento que diz que há tempo para tudo. Tempo de atirar pedras e tempo de recolher as pedras; tempo de abraçar e tempo de se separar. Ao lado, sempre, do marido de quem já se separou, era apenas uma neta, talvez pessoalmente mais sofrida que a política que enfrentou pesadas, e não provadas, acusações de corrupção. Sarney, presidente, foi apedrejado em um ônibus no Rio. Mas, agora afinado com o primeiro governo popular do Brasil, recebeu uma homenagem que mais se pareceu com uma homenagem à nossa virada por cima. Atrasados e modernos, pobres e tão cheios de recursos, somos, os brasileiros, governados pelo operário nordestino que se criou em São Paulo, testemunhas da importância que ainda se dá - incluindo a de ministros a serem hoje nomeados - ao maranhense poderoso de sempre, por sua real presença na história da transição da ditadura à democracia que nos foi possível construir.

O arco da sociedade

De senadores, na igreja da Sé de São Luís do Maranhão, presenças tão ecléticas quanto Romeu Tuma (PFL-SP), Sérgio Zambiasi (PTB-RS), Heráclito Fortes(PFL-PI), Mão Santa (PMDB-PI) e o fiel escudeiro de Sarney, Renan Calheiros (PMDB-AL).

Senhor ministro

O deputado Eunício Oliveira, ainda como líder do PMDB, apontado como futuro ministro das Comunicações, foi uma das presenças que despertou mais atenção na cerimônia religiosa. Como quase-ministro e na véspera do encontro do comando do PMDB com o ministro José Dirceu para definir a participação do partido no ministério, não conseguiu manter a naturalidade. Três vezes chamado de ministro voltou o rosto para responder, como se já o fosse.

- Tenho compromisso importante amanhã (hoje) em Brasília - respondeu aos que o provocavam com a possibilidade de pernoitar em São Luís.

Palavra de ACM

Logo ao sair do microônibus que veio do Calhau, casa de Sarney, o senador Antonio Carlos Magalhães foi parado por um batalhão de jornalistas e declarou:

- Evidente que se é um dia de sofrimento pelo desaparecimento de dona Kyola, também é de comemoração pelo que ela pôde fazer por sua família e especialmente por José Sarney: construir as bases para a realização de uma vida pública notável.

Emoção

O momento mais tocante da missa foi, logo antes da comunhão, a entrada de uma procissão puxada pelos muitos bisnetos de Dona Kyola, todos carregando rosas brancas.

Política presente

Ricardo Murad, irmão do marido da senadora Roseana Sarney, Jorge Murad, sempre causou estranheza na política maranhense por ser radical adversário da família Sarney. No entanto, esteve na missa de Dona Kyola em companhia do irmão e de Roseana. Não foi a única surpresa para os políticos de Brasília presentes à cerimônia. Murad, não o Jorge, mas o Ricardo, ele mesmo, está sacramentado como candidato à Prefeitura de São Luís com o apoio do clã dos Sarney. Isso posto, resta saber quem mudou mais para possibilitar a acomodação.

Agência amiga

Coincidência ou não, assim que começaram as especulações sobre a saída de Ricardo Berzoini do ministério, saiu o resultado da concorrência - aberta em novembro - para a agência de publicidade que vai servir à Previdência. O primeiro lugar ficou com a OM Loducca, sediada em Brasília e com portfólio de clientes pequeno mas significativo. Atende ao governo de Zeca do PT (MT) e à ONG Missão Criança, criada por Cristovam Buarque. As agências preteridas só souberam da nova pelo Diário Oficial.

Vidas passadas

Criticado por tucanos por ter dito que apóia a idéia de o conterrâneo Patrus Ananias (PT-MG) ser alçado a superministro da área social, o governador Aécio Neves não quer mais saber do tema:

- Só comentei a reforma em relação a Minas. O presidente Lula, aliás, é meio mineiro. Ele me disse que, na outra encarnação, nasceu no Vale do Jequitinhonha.

JOGO RÁPIDO
  • Amanhã, Caetano Veloso faz show no centro de São Paulo, comemorativo ao aniversário da cidade. Hoje, janta na residência do casal Aloísio e Regina Mercadante. Ao comunicar à família, o senador ouviu da filha Mariana, estudante de jornalismo, pedido para fazer uma entrevista exclusiva com o cantor.

  • Os deputados José Carlos Aleluia (PFL-BA) e Alberto Goldman (PSDB-SP) farão audiência pública na próxima terça-feira, na Câmara, sobre o setor elétrico nacional. Também participarão os presidentes do Conselho de Infra-estrutura da CNI e o presidente da Associação Brasileira dos Distribuidores de Energia Elétrica, entre outros.

    Com Doca de Oliveira e Bruno Arruda


  • [23/JAN/2004]


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