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Recordar e viver


BELISA RIBEIRO

Os 14 anos, hoje, da primeira eleição direta à Presidência da República depois da ditadura militar mostram o quanto é necessária a reforma política. A pitoresca mordaça usada pelo candidato Marronzinho para reclamar de seu pouco tempo na TV deixa de ser engraçada quando se lembra que ele havia sido condenado por estelionato antes de amealhar seus 238.425 votos, 0,33% do total. Dirige hoje um periódico evangélico e mudou de nome para Jamo Little Brown. Seu Partido Social Progressista já não existe - PSP, agora, é Partido dos Servidores Públicos, criado há dois meses por funcionários públicos de Minas Gerais insatisfeitos com a reforma da Previdência. Foram 22 os candidatos em 1989. Mortos, Mario Covas, Ulysses Guimarães e Aureliano Chaves continuam na lembrança histórica. E Lívia Maria? Sim, foi candidata (179.922 votos, 0,25%) pelo finado PN, Partido Nacionalista. O Partido da Mobilização Nacional de Celso Brandt (109.909 votos, 0,1%) continua na ativa, mas em sua sede não sabem informar nem se o candidato ainda está vivo. De Enéas (360.561 votos, 0,5%) ninguém poderá se esquecer. O médico hipernacionalista fixou tão bem seu nome, em seus 30 segundos de propaganda gratuita, que passou de piada de boteco a deputado mais votado em São Paulo nas eleições de 2002, com 1,5 milhão de eleitores, e já anunciou que disputa de novo a Presidência em 2006.


Enquanto não se regula de forma mais lógica a representação partidária, vale lembrar o quanto eram autoritários os tempos em que era fácil saber quem era quem. Há 114 anos, Deodoro da Fonseca comandava as tropas que acabaram, na marra, com 67 anos de monarquia. Dom Pedro II perdera o apoio das forças que sustentavam o Império - Igreja, Forças Armadas e conservadores escravagistas.

Com poucos ou muitos partidos, viva a democracia e vida longa à República!

Insista, não desista

Levantamento inédito e ainda parcial do Tribunal Superior Eleitoral revela que, em 2003, houve aumento de quase 3 milhões de pessoas no eleitorado brasileiro. O Brasil tem hoje 116.066.871 eleitores, 2,54% de aumento em relação ao pleito geral de 2002 e mais 61% do que em 1989. Os desiludidos radicais existem, mas em bloco minoritário - 2 milhões foram expurgados, por deixar de participar em três eleições consecutivas.

Maldade na web

Por e-mail, circula a seguinte lista dos mais recentes planos de governo: Sarney - Cruzado, Collor - Collor, FH - Real, Lula - Colombo. Sendo Colombo denominação dada em alusão ao grande navegador genovês, que, quando saiu, não sabia para onde ia e, quando chegou, não sabia onde estava.

Memória de cárceres

O Pen Club Internacional instituiu, há 22 anos, o 15 de novembro como o Dia dos Escritores Presos, para homenagear autores cujas idéias acabaram custando a liberdade. Apenas no ano passado mais de 700 escritores e jornalistas em todo o mundo foram presos, atacados ou mortos por suas opiniões. O Pen Club do Brasil - que tem entre seus integrantes Arthur da Távola e Celso Lafer - está de luto pela morte, dia 19, de Marcos Almir Madeira, seu presidente por 33 anos. A sucessora, Maria Beltrão, vai comemorar, dia 1º de dezembro, não haver autor brasileiro enjaulado. Graciliano Ramos, que amargou cadeia duas vezes e foi do Pen, ficaria feliz.

Muro sujo

O Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra está pedindo aos militantes ''agitação de massas'' entre 19 e 21 de novembro, quando acontece em Miami a reunião sobre a Área de Livre Comércio das Américas. As cidades brasileiras poderão ficar bem coloridinhas, já que o MST recomenda expressamente em seus folhetos a ''pichação''.

Restos incômodos

A votação do Orçamento de 2004 subiu no telhado. Deputados de todas as vertentes, principalmente governistas, têm mandado por seus líderes recadinho aterrorizador para o governo: não votam o Orçamento enquanto não tiverem suas emendas e restos a pagar de 2002 liberados. De um total de R$ 13,8 bilhões herdados de FH e ainda não processados, Lula cancelou R$ 3 bilhões, pagou R$ 5,1 bilhões e deve, não nega, os quase R$ 8 bilhões restantes.

Cargo ou cargo

A nomeação de dois ministros nordestinos do PMDB está fazendo Lula balançar entre o líder do PMDB na Câmara, Eunício Oliveira (CE), e o senador Garibaldi Alves (RN), indicação do presidente do Senado, José Sarney (AP). Mas o governo não quer melindrar um de seus mais eficientes líderes e, se não conquistar o posto, Eunício deve fazer o novo ministro.

Mão na mala

O senador Mão Santa não consegue aceitar a demissão dos afilhados que havia encaixado na administração federal. Já avisou ao PMDB que, se o tratamento não melhorar, se muda para o PDT de Leonel Brizola.

Com Doca de Oliveira e Bruno Arruda


[15/NOV/2003]


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