Osetor produtivo chora os juros altos, mas ostenta, em
2005, lucros tão exuberantes quanto os das instituições
financeiras. Estão aí os balanços do primeiro trimestre
já divulgados, nos quais despontam mineradoras, petroleiras,
químicas e exportadoras em geral, além dos bancos, é
claro. O Bradesco, por exemplo, dobrou o lucro do primeiro
trimestre, frente a igual período de 2004. Esses resultados já
não são mais manifestações tópicas de empresas sortudas,
mas espalham-se pelos setores da economia.
Por isso mesmo, vale a pena dar uma olhada na tabela
abaixo, que tira o retrato do ano passado inteiro e suas ligações
com o ano anterior. Elaborado pela Técnica Consultores
Ltda. a partir dos balanços de 112 companhias de capital
aberto, distribuídas por 19 setores, o estudo revela números
de primeiro mundo para o indicador mais importante: a rentabilidade
do patrimônio, quer dizer, o lucro líquido em relação
ao capital da empresa – grosso modo, uma rentabilidade
de 25% num ano significa que o capital investido retornará
em quatro anos ao bolso do dono.
Na média dos 19 setores, a rentabilidade em 2004 ficou em
18,6% (um bom avanço sobre os 15,5% de 2003); a das instituições
financeiras analisadas foi de 22,3%; e a dos demais 18
setores produtivos, de 18%. Mas, para além das médias, é importante
notar os campeões do lucro, com índices que quase
chegam a 50%, como fertilizantes, siderurgia, mineração, petróleo.
É importante notar também que, das 112 companhias
pesquisadas, apenas seis tiveram prejuízo (quatro teles, uma
energética e uma de autopeças) – em 2003, dentro da mesma
amostra, dez registraram prejuízo.
Há muitos ingredientes que explicam essa salada: crescimento
da economia em 2004, grande avanço das exportações,
investimentos em produtividade e modernização das
empresas, faro para abrir mercados externos e internos, leve
recuperação do emprego e da renda. Em 2005, esses fatores
podem repetir-se, ainda que não na mesma intensidade.
Matemática do BB
A mágica da matemática ajuda a explicar o lucro excepcional do Banco do Brasil, que no primeiro trimestre foi 56% superior ao de igual período do ano passado. Um desprovisionamento de obrigações fiscais, no valor de R$ 148 milhões, permitiu ao BB chegar à marca de R$ 964,6 milhões. Sem essa receita extraordinária, os ganhos da instituição somariam R$ 816,6 milhões.
Eficiência em baixa
No primeiro trimestre do ano passado, a conta foi desfavorável ao banco estatal. Na ocasião, houve uma despesa extra de R$ 215 milhões, por conta de um provisionamento para crédito de classificação de risco acima de R$ 50 mil. Sem a conta negativa, o resultado poderia ter chegado a R$ 830 milhões. Desconsiderado o vaivém não-operacional, portanto, o resultado do BB neste ano ficou 1,61% abaixo do de 2004. Mas esse não é o motivo para alarde, explica o economista-sênior da Lopes Filho, João Augusto Salles.
- Ainda que com fundamentos muito bons, houve uma deterioração no índice de eficiência - conta.
Revoada
Os estrangeiros, que invadiram a Bovespa até meados de março, provocando sucessivas altas nas cotações, começaram a sair em abril e continuam a ir embora. Nos primeiros 20 dias de maio, o saldo de compras e vendas por parte desses investidores está negativo em R$ 611 milhões. No acumulado do ano, o saldo ainda é positivo em R$ 242 milhões. Mas a trajetória é francamente descendente: no primeiro bimestre, registrou-se ingresso líquido positivo de R$ 4,3 bilhões; e no primeiro trimestre, de R$ 2,8 bilhões. De janeiro a abril, o retrato é mais feio: entraram só R$ 853 milhões. Os estrangeiros devem voltar logo. Os preços em baixa são convidativos.
Linha de frente
Peter Gowan, editor da New Left Review
e autor de A roleta global (Ed. Record),
participa hoje, às 17h, de seminário
no Instituto de Economia da UFRJ. O
inglês, também professor da University
of North London, trará sua visão política
da globalização, que atenderia aos interesses
dos EUA. Para ele, os americanos
tentam, desde a queda do bloco soviético,
construir um império global, com desdobramentos na macroeconomia.
Depois de vender a carteira de corretagem
de ações para a Ágora Senior,
em 2003, a Máxima está de volta ao
pregão. Mas nada de disputar o investidor
pessoa física, o alvo de todos os
esforços da Bovespa. A estratégia é
atender outro filé do mercado: os
grandes clientes institucionais, a
exemplo do que já faz na BM&F.