Nesta semana, o Banco Central elevou o juro básico para 18,75% ao ano, na sexta alta consecutiva, acendendo novamente o repúdio de empresários e sindicatos de trabalhadores. Mas para o economista-chefe do Banco Modal, Alexandre Póvoa, o efeito da Selic na economia real está ficando cada vez menor. Ele considera que o BC deveria ter acrescentado uma dose ainda maior de aperto monetário.
Na próxima quinta-feira sai a ata da última reunião do Copom. O que se deve esperar de sinalização do BC quanto à evolução do juro?
É possível que eles mencionem que os núcleos de inflação continuam altos, apesar da pequena melhora recente. Talvez por isso eles não tenham cumprido a ameaça da ata do mês passado, de elevar a taxa em ritmo mais forte do que 0,5 ponto percentual este mês. O meu temor é que, ao fazer isso, mesmo que volte a apresentar um discurso duro, o mercado não leve o BC muito a sério. Talvez ele veja a coisa melhorando, mas, se escrever isso, os juros no mercado vão cair barbaramente.
O BC deveria ter aumentado ainda mais a Selic?
Um aperto maior teria mais efeito sobre as expectativas. Não precisava ser um choque, mas algo para surpreender o mercado. Esse processo de conta-gotas só aumenta a dívida pública, mas não muda as expectativas de inflação. Maquiavel ensinou que o mal deve ser feito de uma vez.
Não existem evidências convincentes de que o ciclo de aperto monetário iniciado em setembro já surtiu efeito?
Houve seis aumentos da taxa e só agora o efeito começa a aparecer, mas de forma lenta. O problema é que os diretores do BC ainda não estão certos sobre os motivos de a demanda ainda continuar forte, mesmo com juros em alta. Eles não têm certeza se é culpa da defasagem da política monetária ou de uma inércia provocada pelo surgimento de novos canais de crédito, como o consignado. Como esta equipe do BC é mais conservadora do que a do governo anterior, eles vão continuar subindo juros. O fato é que o efeito da taxa Selic na vida das pessoas é cada vez menor.
Aí o BC faz uma espécie de política compensatória, elevando ainda mais a taxa para alcançar o mesmo efeito que antes...
Mas a culpa não é deles. O crescimento continuado, por dois anos seguidos, é um fenômeno inédito na história recente do Brasil. Aí aparece o crédito com desconto em folha, com juro baixo, e o trabalhador quer consumir.
O aumento dos juros domésticos, num momento de alta liquidez internacional, tem atraído capital externo para o país, aumentando a liquidez do sistema financeiro e, de certa forma, dado combustível para a inflação. Não seria oportuno buscar outra saída?
Mesmo que o juro não estivesse subindo, o fluxo continuaria forte. A alternativa seria aceitar mais inflação. Mas isso é decisão de governo, não de política monetária. Acho que há muita polêmica sobre uma inflação de 5,1% (a meta do BC) ou 5,7% (a expectativa atual do mercado). Mesmo se ela ficar em 6% em 2005, poderemos soltar fogos, porque seria o terceiro ano seguido com inflação declinante. Países que tiveram sucesso em reduzir inflação o fizeram de forma muito mais lenta do que no Brasil.
Quando a Selic vai começar a cair?
Vamos ter pelo menos mais duas elevações. Antes do último trimestre, não começa a cair. A taxa deve fechar o ano com algo entre 17% e 18%.
O que mais fazer para evitar que o real se valorize ainda mais frente ao dólar?
Aproveitar ao máximo esse movimento para melhorar os fundamentos da economia, ou seja, continuar comprando reservas internacionais. Daqui a pouco esse conto de fadas da alta liquidez vai passar, mas a melhora no perfil da dívida pública vai ficar.
O núcleo de inflação dos EUA no atacado subiu 0,8% em janeiro, a maior variação mensal em seis anos. Em que medida esse fato pode aumentar as apostas em intensificação do ritmo de alta do juro americano?
O mercado já tinha se preparado pra isso. O foco agora vai ser o CPI (Índice de Preços ao Consumidor), que sai na terça-feira. Se vier ruim, pode haver uma correção forte nas projeções de juros do país.