O mercado financeiro deve continuar ajustando suas projeções para a próxima reunião do Comitê de Política Monetária (Copom), que acontece em 16 e 17 de fevereiro. Que o juro vai subir no mês que vem, não há dúvidas, segundo os comentários pelas mesas de operações de renda fixa e avaliações de economistas credenciados. A magnitude desse ajuste, no entanto, será o objeto das apostas daqui para frente.
O consenso entre os profissionais é de que o Copom nunca publicou uma ata tão clara e objetiva no que se refere a continuidade do aperto monetário. O trecho do documento que diz que ''o Copom examinou a conveniência de acelerar o ritmo do ajuste da taxa de juros básica. Houve consenso entre os membros do Comitê, entretanto, de que os dados disponíveis neste momento não justificariam tal aceleração'', foi o mais comentado.
Diante dessa sinalização dos diretores do Banco Central, os participantes do mercado justificaram suas apostas de última hora, na véspera da última reunião, quando cogitaram a possibilidade de o juro subir mais do que 0,50 ponto. Naquele dia, lembra um experiente profissional de renda fixa, havia posições no mercado futuro para um ajuste de 0,75 ponto para a Selic. Assim, a ata deixa claro que um aumento dessa magnitude era mesmo uma possibilidade dos diretores do BC, conforme observa o economista da Modal Asset, Alexandre Póvoa.
A expectativa de juro mais alto daqui para frente pode contribuir para a constante desvalorização do dólar frente ao real. Isso porque, os investidores estrangeiros que já estão aproveitando a rentabilidade alta na renda fixa doméstica devem continuar demandando esse segmento do mercado. Os papéis prefixados da dívida pública têm sido uns dos mais procurados nas últimas semanas.
Mais reservas
O apetite dos estrangeiros pela renda fixa brasileira também pode contribuir para a recomposição das reservas internacionais brasileiras, à medida que o real se aprecia e o BC encontra oportunidade para comprar moeda no mercado à vista. Já o mercado acionário pode viver um período de esvaziamento em razão das tradicionais migrações de investimentos da renda variável para a fixa em tempos de juros elevados.
Conclusão
Para Alexandre Póvoa, economista da Modal Asset, a primeira conclusão óbvia extraída da ata do Copom é que o BC continua muito preocupado com o comportamento recente da inflação. A segunda se refere à tese de que os 5,1% que o BC está mirando para IPCA deste ano não é a nova meta de inflação e sim o teto máximo aceitável para 2005
Isso porque
Segundo Póvoa, se 5,1% fosse meta real, não faria o menor sentido a permanência de um discurso tão duro enfatizado no trecho da ata que diz: ''... etapas adicionais do processo em curso de ajuste na taxa de juros básica, seguido de um período suficientemente longo de manutenção do juro...''
Ação coordenada
Para o presidente da Confederação Nacional da Indústria (CNI), Armando Monteiro Neto, a ata do Copom reforça a necessidade de ações coordenadas da política econômica, e não apenas da política monetária, com o objetivo de adequar o ritmo da demanda global à oferta pela via da redução do gasto público. ''Caso contrário, poderá haver desestímulo ao investimento privado, com conseqüências prejudiciais ao processo de crescimento sustentado'', afirma.
Acima da meta
No governo, o clima é de comemoração. O Banco Central vai divulgar hoje que o superávit do setor público consolidado - receitas menos despesas da União, Estados, Municípios e Estatais - de 2004 ficou maior do que o acordado com o Fundo Monetário Internacional para o período. A meta para o ano passado era de 4,25% do Produto Interno Bruto. No entanto, até novembro, esse superávit era de 5,29% ou R$ 12,6 bilhões a mais do que o combinado.