Inflação aleija, balanço de pagamentos mata. O adágio de Mário Henrique Simonsen está de novo na ordem do dia, nas entrelinhas do acordo entre o Brasil e o Fundo Monetário Internacional. Com a experiência de quem dirigiu a política monetária em períodos críticos e coordenou a volta do país ao mercado de bônus depois de uma década de ausência, Carlos Thadeu de Freitas Gomes chama a atenção para a flexibilidade das novas metas de inflação para este ano e o ano que vem.
O aumento da margem de variação para 2,5 pontos percentuais e do teto para 9% refletem a disposição de conferir prioridade absoluta ao fluxo de capitais, deixando o combate à alta de preços em segundo plano, por ora. Erra, portanto, quem tenta identificar uma cotação a partir da qual o BC interviria no câmbio. O dólar alto pode até ajudar, inviabilizando uma evasão maciça de divisas. A pressão sobre o real persistirá, ao sabor das pesquisas eleitorais, pelo temor crescente do centralização do câmbio pelo próximo governo. O BC ofertará dólar para cobrir dívida externa, jamais em defesa de uma meta precisa de variação. Para isso, tem o aval da equipe de Horst Koeller no FMI, que estabeleceu limites para o uso de divisas.
Mudanças de Fundo
O FMI aprendeu rápido a extrema dificuldade de conciliar câmbio flutuante e metas de inflação em países importadores de capital, e portanto vulneráveis face a turbulências externas. Avaliação do BBV, um dos primeiros bancos a apostar suas fichas num acerto entre o país e o Fundo, dobrando as resistências da oposição.
Jogo de varetas
O BC namora a idéia de aumentar o compulsório, a parte dos depósitos bancários recolhida a seus cofres. A medida reduziria o volume de recursos disponível para a compra de dólar, reduzindo a pressão baixista sobre o real, sem aumentar o custo da dívida pública.
A maior dificuldade para a equipe de Luiz Fernando Figueiredo é estabelecer a fórmula adequada. Um aumento linear, igual para todos, teria o inconveniente de colocar bancos de menor porte em sérias dificuldades, agravando o quadro, crítico desde que a aceleração dos juros futuros causou prejuízos a quem comprou LFTs com prazo mais longo de resgate.
A salvo da chuva
As empresas mais líquidas, na maioria, estão preferindo quitar a rolar seus compromissos no exterior, para não pagar juros extras por conta da turbulência. Casos, por exemplo, da Gerdau, que tem US$ 140 milhões em bônus vencendo este mês, e da Cemig, que garantiu-se para pagar US$ 150 milhões em setembro.
Passado presente
Os efeitos da crise argentina podem ter alertado o FMI e o governo americano para a necessidade de antecipar-se ao quadro mais agudo. Em contrapartida, deixou nos bancos privados americanos e europeus o trauma de perdas fortes por não sair a tempo. Para piorar, o Brasil responde hoje por 40% dos títulos em mercados emergentes. O que torna as conseqüências de um colapso muito maiores para os grandes bancos. E, paradoxalmente, termina por acelerar a crise.
Keynes latino
Um programa de obras integrando a infraestrutura sul-americana em energia e transporte, com US$ 30 bilhões em cinco anos, é a arma para fazer decolar a economia do continente. A proposta é da Cepal e recebe apoio crescente de organismos multilaterais como a Corporación Andina de Fomento e o BID, presidido por Enrique Iglésias. O trunfo para atrair recursos americanos, sem os quais o programa não anda, é que as obras são indispensáveis para o sucesso da Alca.
A última que morre
Balanço da Associação Brasileira de Leasing revela que o total imobilizado pelo segmento de máquinas e equipamentos cresceu de 16,6% para 19,6% entre janeiro e junho, enquanto o saldo total de contratos, atualmente em US$ 767 milhões, se manteve
praticamente inalterado. Sinal de que ainda permanece a confiança e aquecimento das vendas no segundo semestre.