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A força da marca
[04/JAN/2004]
Oque você prefere vestir: uma roupa feita por alguém ou com um nome engraçado na etiquetinha? Basicamente, esta é a diferença entre moda de autor e empresarial. Assinar uma peça tem uma força maior do que esconder o estilista ou proprietário por trás de uma marca. Ou não? Este é um dos impasses da moda contemporânea: estabelecer o limite entre criadores e estilistas, assim como na arte diferenciam-se os artistas e os designers. Há criatividade em todos, mas artistas e estilistas têm um ímpeto cego de inventar, muitas vezes, sem se lembrar da venda, a ponta final que dizem que consagra a moda.
Este grupo kamikase anda escasso, porque o lado empresarial engoliu muitas marcas pequenas e autorais. Fica difícil saber quem cria as coleções da Givenchy, do Kenzo, vai mudar a Gucci, a Saint-Laurent, e com poucas exceções perde-se a característica dos criadores. Salva-se Karl Lagerfeld, que faz Chanel, e Galliano, que reviveu Dior.
Óbvio, nem os estilistas são eternos, algum dia têm que ser substituídos. O impasse continua no momento em que um jovem desenha e confecciona sua primeira coleção, e precisa decidir entre assinar ou inventar uma marca dentro do espírito do momento. Que seja divertida, engraçada ou ambígua, dentro de algum tempo poderá estar fora de moda. Coisa que um nome, por mais comum que seja, jamais ficará. Moda é uma arte, que merece ser assumida.
Enfim, recebo imagens de beleza condizentes com a realidade. O conceito de verão da L´Oréal Professionnel, com cabelos cortados e coloridos por Marco Antonio de Biaggi, Viktor I e Celso Kamura, reflete exatamente o que queremos parecer. Louras luminosas, como areia; morenas com mechas avermelhadas, como terra; ou com corte irregular, meio punk, metálico, lembrando pedra. Imagens ótimas de Nana Moraes, modelos bonitas, tudo o que se quer para copiar. Seja areia, terra ou pedra neste verão.
Um dos melhores figurinos criados por Marília Carneiro para a novela Celebridade é o da Sandra que namora o surfista Paulo César, sobrinha da Maria Clara/Malu Mader. Com destaque para as bermudas de surfe, com entalhe floridinho nas laterais. É o estilo deste verão, que traz para o asfalto a vestimenta de quem vive nas ondas. Uma coleção que une moda e tecnologia é da marca Mahina Girls, assinada por Flávio Sabrá. Além de fofas, as bermudas oferecem a inteligência dos tecidos Jacyra, produzidos com fios de poliamida microfilamento da Rhodia, protegendo contra os raios UV-A e UV-B. Mahina (pronúncia: marrina) é palavra havaiana, que significa lua ou mulher. E, como diz Flávio, "só a sombra de um tubo protege tão bem do sol".Techno: Marc Jacobs misturou 60 e 2000, revisando proporções, como no legging com blusão acetinado sobre a camiseta brancaPunk Rock: uma alternativa em branco das jaquetas e calças justas pretas, com muitas correntes em prata e ouro, em Chanel
Cacos de garrafas trabalhados pelas marés e areias de Angra dos Reis substituem pedras preciosas nas jóias de Laurenice Singulane. A designer lembrou da geometria do Art Deco e do trabalho da artista plástica Rita Fonseca, contornou os vidros com ouro amarelo e vai lançar a coleção Nostalgia.
Impressiona o sucesso também do figurino do Marcos Palmeira. Tenho assistido a disputas nas lojas da Mr. Cat, de clientes loucos para aderir às sandálias do personagem. Afinal, há o aval de atualidade do cara, e uma vantagem em relação aos tênis: as sandálias são mais frescas... e muito mais baratas. Em média, custam R$ 65.
Quando comentei nesta coluna que a manteiga francesa La Motte era uma delícia, em seguida recebi o recado que ela estaria sendo importada pelo Zona Sul. Demora, porque há os trâmites legais, mas chega. Enquanto isso, descobri que a margarina Delícia ficou ótima com sabores de azeitona ou alho. E já tem aqui, prontinha para passar em torradinhas.
O francês Christian Lacroix desistiu de desfilar em outubro, nas coleções de Paris. Em vez do convite, enviou um catálogo de fotos, mostrando sua visão do guarda-roupa da mulher que trabalha. Na foto, uma amostra, coerente com o talento de Lacroix para inventar combinações descombinadas: vestido leve em broderie, com spencer de ombros pontudos, lenço enrolado no rabo-de-cavalo; minissaia de tweed xadrez com blazer rosa e meias de renda. Saltos altos, brincos e broches completam o look.Bossa Nova: em Paris, Lagerfeld lembrou as minissaias jeans, com casaquinhos ajustados
Em pleno janeiro, um dos setores que mais empregam no Estado está às voltas com casacos e tricôs: as confecções e ateliês preparam as coleções de inverno, que devem ocupar show-rooms e passarelas neste mês. O que veremos, o que vestiremos depois das liquidações de verão? Segundo as previsões lançadas em outubro pelo caderno de tendências do Senac Rio, será um verdadeiro álbum de recordações. As décadas de 20, 40, 60, 80 e até um rescaldo do ano 2000 servem de inspiração, sem resultar em looks de figurino. A adaptação correta evita o ar de personagem empoeirado e ainda tem a vantagem dos novos tecidos, muito mais leves e fáceis de manter. No evento de lançamento, a moda foi associada à música, facilitando a visualização dos estilos. Jazz, Era do Rádio, Bossa Nova, Punk Rock e Techno foram as palavras-chave do inverno, justificadas no seminário por competente palestra de Nelson Motta.
Claro que devem aparecer idéias tiradas das coleções de verão européias, como o jeito Saloon de Jean-Paul Gaultier, desfilado em outubro. Nas malharias do Bom Retiro, em São Paulo, a figura de Marlene Dietrich, musa da coleção Dior de outubro, já estampa camisetas.
No Brasil, a Rhodia também fez previsões, confirmando os anos 60 - efeitos gráficos em preto e branco, inspiração em Courrèges e Cardin -, e os 80 - das calças justas, spencers e saltos altos. Na cartela, mais uma vez, o preto predomina, segundo as tendências internacionais. Mas neste nosso país, de praia o ano inteiro em boa parte do território, já é tempo de inventarmos moda mais colorida.
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