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26 anos de Maluquinho e 46 de Pererê
É indispensável em qualquer estante 25 anos do Menino Maluquinho (Ed. Globo, 112 págs., R$ 28), mesmo na de quem não é mais leitor do gibi. Na verdade, o Maluquinho nem era um gibi quando começou e já tem 26 anos, mas a edição comemorativa do jubileu de prata saiu só agora. Deve ter dado um bocado de trabalho arrancar dos ''25 amigos do Ziraldo'' (que na verdade são 27) as ilustrações-homenagem que compõem a edição.
O livro resume a trajetória do Maluquinho. Metade das páginas traz uma HQ normal; as outras são páginas duplas assinadas por Mauricio de Souza, Angeli, Nani, Jean, Miguel Paiva, Aroeira e vários outros, incluindo este humilde escriba que vos fala. Cada um deu a sua interpretação de Maluquinho em estilos variados que vão do cartum ao mangá. Ziraldo tem um milhão de amigos e nem todos puderam entrar na brincadeira, mas a amostra é representativa do que o quadrinho brasileiro tem a oferecer.
Na história principal, enquanto mãe e filho - duas gerações de leitores - comentam sobre o livro original do Menino Maluquinho, o pai, que é motorista de táxi, aparece com um pacote de desenhos que alguém esqueceu no veículo. Juntando a papelada, o garoto percebe que se trata do material para a edição comemorativa e corre à editora para entregar tudo a um Ziraldo desesperado. De recompensa ganha milhões de revistas autografadas e todos saem felizes.
A última página dupla dá uma panorâmica da ''editora'': uma mistura da redação infantil da Editora Globo, que fica em São Paulo, com o estúdio do próprio Ziraldo, no Rio. É claro que Ziraldo não dá expediente na editora, mas essa liberdade poética é para homenagear todo o staff que vem tocando as produções do Maluquinho.
O personagem surgiu em 1980 num livro infantil que até hoje está no catálogo da Melhoramentos. Foi o segundo grande salto na carreira de Ziraldo, consagrando-o definitvamente como autor de livros infantis. Maluquinho tocou a alma de famílias inteiras: afinal, todo mundo já tinha sido um Maluquinho na infância.Vendeu milhões de exemplares e virou filme, seriado de TV, wallpaper de celular, lencinho de papel e o que mais alguém quiser inventar. Até mesmo história em quadrinhos.
O primeiro grande salto aconteceu em 1969, quando Ziraldo lançou seu livro infantil de estréia, Flicts, uma revolução gráfica para a época. Um editor havia encomendado um livro às pressas, Ziraldo blefou dizendo que já tinha um pronto e foi pra casa pensando como sair dessa. Para dar conta do prazo apertadíssimo, bolou uma história que usava só cores chapadas e contava as amarguras de uma cor deslocada na ''sociedade das cores'', pois não tinha seu lugar no arco-íris. Mas a cor fica famosa quando o astronauta Neil Armstrong anuncia que ''a Lua é Flicts''. Em poucas semanas, o livro tornou-se um best-seller com direito a desdobramento em peça de teatro de igual sucesso.
O ano de 2005 marcou também outra efeméride importante: 45 anos de Pererê, sua primeira revista em quadrinhos, lançada pela extinta editora O Cruzeiro. Numa época em que o fantasma da nacionalização dos quadrinhos assombrava as editoras, estas começavam a se preparar para uma lei protegendo protegendo produtos nacionais que estava para sair a qualquer momento.
Um diretor de O Cruzeiro convidou os artistas da casa (Ziraldo, Carlos Estêvão e Péricles) para criarem revistas nacionais com seus personagens. A única exigência era que houvesse três números prontos em estoque. Ziraldo correu para casa e em um fim de semana aprontou a primeira edição do Pererê. Carlos Estêvão demorou dois anos para produzir seu Doutor Macarra e o criador do Amigo da Onça, Péricles, nunca conseguiu terminar o primeiro número de seu outro personagem, Oliveira Trapalhão.
Pererê originalmente era um cartum semanal na revista, mostrando o Saci em situações embaraçosas por não ter uma das pernas. Para transformar aquilo num gibi, Ziraldo criou uma turma de amigos formada pelo índio Tininim e vários bichos inspirados em seus amigos de infância. Em outubro de 1960 saiu o primeiro número da revista, que teve 43 edições e durou até 1º de abril de 1964. A data é apenas uma coincidência com o golpe militar. O motivo do encerramento foi outro: Ziraldo foi pedir aumento e o mesmo diretor que tinha encomendado a revista já não tinha mais medo da lei de nacionalização (que a essas alturas já tinha ido pras cucuias) e o mandou plantar batatas.
Pererê foi ressuscitado na década seguinte pela Editora Abril, com histórias novas, mas durou apenas dez edições. Mesmo na época de O Cruzeiro, não chegava a ser um sucesso de vendas. Sucesso mesmo para valer, só com o Maluquinho.
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