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Um apagão na cultura


A morte de Haroldo de Campos é uma das notícias mais tristes que já recebi. Não sei se por intuição ou por homenagem mais que justa, eu não parava de mencioná-lo em minhas colunas recentes, assim como se fosse um daqueles poemas mântricos e sonoramente minimalistas, ''onde tudo é tudo e nada é nada'' (Galáxias).

Minha relação com Haroldo era antiga, íntima e intensa. Escrevi Eletra com Creta (1986) em homenagem aos irmãos Campos e ao Décio Pignatari. Ficamos amigos na época da Trilogia Kafka (1988), onde ele disparava a escrever sobre os espetáculos e eu o visitava em sua casa em Perdizes quase todos os dias. Depois vieram os dois livros da Editora Perspectiva do Jaco Ginsburg (que Haroldo organizou) e as leituras anuais de Bloomsday (festa anual relacionada ao personagem de Ulysses, de Joyce) e, finalmente, veio Graal, o retrato de Fausto quando jovem, peça que ele havia escrito em 1952 e que eu encenei no Rio, com Bete Coelho, Camila Morgado, Bruce Gomlewski e o pessoal da CAL em 1997.

Ou seja, Haroldo era o meu grande mentor. E isso é dizer pouco. Sem ele - e os modernistas de São Paulo - não haveria o Tropicalismo, não haveria Helio Oiticica e tudo aquilo que diferencia o Brasil do resto da América Latina. Os irmãos Campos e Décio Pignatari (não esquecendo Oswald de Andrade, Sousândrade, Mario de Andrade, Antonio Cândido e outros, sem querer entrar em rachas internos) é o que fez com que a cultura brasileira desembocasse no lado progressista do mundo. Somos progressistas, comparados a, digamos, 80% das outras culturas, que não fizeram sua revolução modernista, sua ''mini Weimar'', sua ''mini Bauhaus''...

Haroldo era ligado a Max Benze, seu grande mestre e (se aceitassem esse termo na Alemanha, mas não aceitam) um ancião da semiótica. Derrida e outros semiólogos também são devotos desse transcriador maravilhoso que foi capaz de criar uma ponte única. Ele uniu a cultura anciã (digo, a judaica e a chinesa, que deram origem a tudo, daí o livro de Haroldo de Campos Cena de origem) aos pré-socráticos, fazendo fusões (como só Miles Davies sabia fazer), com Goethe, sua grande obsessão, ao lado de James Joyce.

Deus e o diabo na terra de Fausto e Panaroma de Finnegan's Wake são duas obras-primas que colocam o mundo mais próximo do Brasil ou vice-versa. Não são traduções, são transcriações, como ele deixava bem claro. Haroldo era um clássico, um neoclássico, um iluminista e um iluminado.

Sua poesia concreta alimentou o Brasil, transformou-o num adolescente consciente e transgressor. Haroldo quebrou todas as regras e não lhe deram paz até o último dia de sua vida. Eu tive o enorme privilégio de poder ter convivido com ele nessas últimas duas décadas e ter aprendido com ele uma enormidade. É impensável imaginar que, enquanto escrevo, aquele ser se foi, e Carmen, sua mulher, e Ivan, seu filho, se vêem diante de uma urna de cinzas, como se fosse aquela peça perplexa de Beckett onde - em três urnas - as personagens se perguntam o que fazem sobre a Terra.

Mas como suas duas grandes obsessões em vida foram Finnegan's Wake (um trocadilho que pode significar funeral de Finnegan e o despertar de Finnegan) e Fausto, aquele que vende a alma pro diabo pra manter sua eternidade, Haroldo agora vai poder conferir ao ''vivo'' do que se trata essa brincadeira toda, esse circo todo aqui na Terra a que chamamos de vida.

Saiba, Haroldo, que aquele meu ''terrível ato transgressor'' que parece ter chocado tanta gente pelo suposto mau gosto no final da estréia de Tristão e Isolda foi em homenagem a você e, usando um conselho seu: ''Quando te agredirem com uma bola de gude, venha logo com três granadas de uma vez''.

Adeus, meu queridíssimo amigo.


[19/AGO/2003]


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