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É Goebbels?

LONDRES - Excelente a entrevista que Cacá Diegues concedeu a Arnaldo Bloch. Chocante. Será que a disputa de poder entre os pequenos satélites de sub-ministérios levará a cultura brasileira à ruína? Ou seja, será que em pleno governo Lula, que deveria esbanjar poesia e exuberância, o que teremos é uma espécie de fascismo que dita as regras daquilo que é ou não é brasileiro?

1 - Conversei com o Cacá assim que saiu a entrevista. Existe algo que não consigo engolir, pois conheço, de longa data, o Yakoff Sarkovas. Ele é amigo meu e foi meu produtor em Eletra com Creta e Trilogia Kafka. Portanto, me soa um tanto quanto dissonante que venha dele a rotulação do que seja ou não brasileiro, folclórico ou não. Yakoff não é dessas coisas. Ele é um expert em leis. Deve ter alguma sombra escondida por trás disso. Yakoff não é Goebbels.

2 - Renata Sorrah levou um ''não'' ao tentar montar Medéia. Alegação: ''não ser brasileiro''. Isso é, no mínimo, uma das coisas mais ignorantes que eu já ouvi. Medéia, de fato, não é brasileira. Nem mais grega: é universal. Nanini levou um ''não'' para o projeto de ''A morte do caixeiro viajante''. Alegação: ''não é brasileiro''. Estupidez total, pois a peça é um clássico do teatro mundial e ninguém melhor do que Nanini pra montá-la.

3 - A entrevista de Cacá é tão brilhante que choca por sua clareza. Se minha paixão por esse artista/cineasta/poeta já era total, o que dizer dele agora? Parabéns, Cacá!

4 - Rodrigo Fonseca, que escreve para este mesmo caderno (e é uma grande fonte de inspiração para mim) deveria comentar essa entrevista, já que será, em curtíssimo tempo, um grande cineasta. O que você tem a dizer, Rodrigo?

5 - E você, Fernando de Castro? Já que não lhe dão coluna, manifeste-se através de carta.

6 - Marisa Alvares Lima relança - finalmente - um dos documentos mais importantes da era mais utópica e mais linda que o Brasil atravessou: o movimento Tropicalista e o do Cinema Novo. Esse livro (que eu sempre quis adaptar pro palco) é um verdadeiro tesouro e contém uma preciosidade de intimidades sobre a era em que o Brasil era um país colorido, em que a favela não era um lugar temido e sim celebrado. Estão todos lá, desde os irmãos Campos, Helio Oiticica, Caetano, Antônio Dias, Gal, Bethânia, as classes sociais se integrando através da arte (já que a ditadura nos encarava com seus fuzis). Marginália é a prova de que a arte não tem nacionalidade.

7- Esta coluna era pra atacar o absurdo do Guggenheim. Heim em alemão e em yiddish quer dizer lar ou asilo. Os judeus ricos de Nova York, quando se aposentavam, iam para a Flórida. Parece que, apesar da ocasional bala perdida, Cesar Maia (e sua idéia de uma Broadway lipoaspirada) deve ter prometido algum Rio de ouro pros herdeiros de Peggy...

8 - Eu queria desejar PARABÉNS ao queridíssimo Sérgio Britto pelos 80 anos muitíssimo bem cumpridos. Foi aqui nesta cidade de Londres que nos conhecemos, faz exatamente 30 anos. A ele devo a minha carreira teatral no Brasil. O resto é História. E que História!

[06/MAI/2003]

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