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O poder visível

LONDRES - De volta à paz aparente desta terra que deu origem aos Sex Pistols e aos hooligans, aos neonazis da National Front e aos lindos lábios de Mick Jagger, finalmente consigo respirar. Vamos ver. No domingo, Tony Benn, um dos parlamentares que mais admiro desde os meus anos na Amnesty International (1974-1979), elaborou, em lúcido bate-papo com a BBC, uma análise do que trata esta guerra e o que mais o assusta nela.

1 - Mas, cá entre nós, que foi lindo ver a estátua de Saddam cair foi. Não foi? Não foi maravilhoso ver aqueles palacetes destruídos e estuprados pelas forças anglo-americanas? São as tais contradições com as quais nós, pacifistas, somos confrontados. É lindo ver um ditador, um torturador, cair.

2 - Como reagir quando vemos as cenas dos iraquianos beijando os soldados anglo-americanos, martelando as estátuas caídas de Saddam e tacando fogo em qualquer retrato que lembre essa figura?

3 - Mas, é claro, tudo depende do ponto de vista. Atravessei vários países nessa última semana. É esquizofrênico assistir à cobertura jornalística dada pela imprensa de cada país. Aliás, não se precisa ir tão longe. A mesma CNN tem várias versões para sua diversificada audiência. A CNN internacional é mais moderada. Às vezes os repórteres são até os mesmos (como Christiane Amampour ou Wolf Blitzer) mas quem os vê na CNN americana leva um choque.

4 - O ''patriotismo'' da CNN nacional está transbordando qualquer limite. Não há um pingo de crítica, não há um pingo de dúvidas sobre nada. Somente heroísmo. E o fundo musical que acompanha as reportagens é de vomitar.

5 - Quem lucra? Quem perde? É complicado. Uma nova ordem econômica mundial está se formando. É evidente que os americanos já estão com total controle sobre o petróleo iraquiano. Ao mesmo tempo, o Congresso americano não debate mais as questões que estavam massacrando os EUA há seis meses (Enron, Worlcom, Inclone, AOL-Time Warner e outros escândalos corporativos). Os ingleses (que nunca aderiram ao euro) se juntaram com os americanos e, ao que me parece, o alvo é continuar a procurar inimigos do ''eixo diabólico'' (a Síria ou o Irã devem ser os próximos), já que a Al Qaeda está aí e tudo o que aconteceu foi o seguinte: já que não conseguiram até hoje encontrar o Bin Laden, foram atrás do Saddam Hussein.

6 - O ataque anglo-americano ao Iraque acabou colocando a economia da Europa no centro da guerra. Quem vai sofrer com isso será o euro, moeda não adotada pela Inglaterra. Grande plano!

7 - São muitos golpes de xadrez numa mesma partida. São os Estados Unidos da América contra os Estados Unidos da Europa, numa visão de longo prazo. Vai ter homem-bomba pra burro e vai ser um Deus nos acuda.

Um dia todos os impérios caem. O problema será determinar qual será o império, já que a fusão foi a meta da globalização. Um plano que não deixa traços, que torna os donos do poder invisíveis. O mal de ditadores como Saddam é que ele fazia o estilo antigo, aquele de cultivar o próprio ego, construindo palácios enormes para ele e seus filhos e deixando o povo na miséria. Seu mal é que ele queria ser visível.

Bem, agora, pelo que tudo indica, se ele ainda está visível, não deve passar de um punhado de ossos. É um mundo sujo de interesses. Dando um pulinho nos livros de História... não foi sempre assim?

[15/ABR/2003]

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