LONDRES -
Domingo foi uma noite de muita emoção, especialmente para mim e meu companheiro de estrada há tantos anos, Philip Glass. Depois de anos trabalhando na margem, esse gênio absoluto da musica, revolucionário em todos os sentidos, o mais prolixo e reiventor de si mesmo, indo da ópera até a sinfonia, da música de câmera até o pop, Philip, domingo à noite, ganhou o Bafta, o Oscar britânico pela trilha do filme
The hours. Foi seu primeiro grande prêmio. Só eu sei o que isso significa pra ele. Philip rala há décadas. Esses prêmios abrem portas e não significam o endosso de nada, mas promovem mais trabalho e possibilitam mais oportunidades.
Festejamos a noite inteira e não nos contivemos. De madrugada, não agüentamos. Num cantinho do Dorchester Hotel (um dos hotéis mais chiques de Londres), com uma taça de champagne na mão, relembrando as épocas duras, onde dormíamos nos quartos mais simples, voávamos de classe econômica, entre lágrimas e gargalhadas (não havia como ignorar a suíte que a Miramax havia dado pra ele e que custava 890 libras por noite e o vôo de primeira classe), acabamos aos soluços. No palco, na hora do agradecimento, Philip se embaralhou todo. Coisa rara. Ele é supercontrolado, até reservado às vezes, mas chegou a gaguejar e as últimas sílabas foram sufocadas pela emoção.
Eu adoro quando um amigo meu triunfa e consegue quebrar as barreiras.
Num e-mail de ontem de manhã, Cacá Diegues me disse que Deus é brasileiro chegou a um milhão de espectadores. No café da manhã de despedida de hoje com o Philip, eu disse isso pra ele e pro Hugh Hudson (diretor de Carruagens de fogo). Adoro fazer essa ponte entre pessoas. Tenho falado pra todo o meio teatral e cinematográfico daqui sobre a obra-prima e genial de Cacá Diegues. Deus é brasileiro continua na ponta da minha língua e não escapa de nenhuma conversa. É como se tivesse virado parte da minha vida. Falo mais do filme do que das minhas próprias atividades teatrais da Alemanha. Não é todo dia que se tem um filme como o do Cacá, que reúne tudo, que é a obra-de-arte total e que precisa ser visto e que supera (na minha opinião) tudo isso que vi domingo no Bafta, mesmo os trechos de O pianista, belo filme do Polanski, porém previsível.
Não há nada de previsível no filme do Cacá. É a mente livre de um artista maduro e descompromissado com a indústria em exercício. É a poesia em sua essência. Quero e vou vê-lo como melhor filme estrangeiro no Bafta do ano que vem, assim como no Oscar, nem que eu mesmo tenha que começar uma campanha pra que isso aconteça. (Sinto muito Cacá, o filme é teu, mas a causa é nossa!) Assim como foi hora do Philip, está na hora do reconhecimento internacional do Cacá Diegues. Como disse antes: um prêmio é uma sina na vida de um artista e muitas vezes só representa o resultado de um conchavo político. Não interessa. O importante é que Cacá é o grande gênio do cinema. Não importa se é brasileiro ou não. Precisa ter o reconhecimento e a indústria a seus pés.
No entanto, estamos com uma guerra com a data marcada (leio hoje) para o dia 7 de março. Que absurdo. Ninguém quer essa guerra, Chirac não a quer porque a palavra Iraque já está embutida em seu próprio nome. No entanto, o lider francês recebe em seu país um ditador como Robert Mugabe, do Zimbábue, um assassino condenado pela comunidade internacional. E Schröder, o premier alemão, esperto e inteligente, não quer a guerra porque a Alemanha não produz petróleo e precisa se livrar da imagem de país guerreador. Tudo no mundo hoje é imagem. Tudo é tática (aliás, sempre foi assim, não foi?)
Mudando radicalmente de assunto, já disse que fico radiante com o sucesso de amigos. Camila Morgado é um exemplo. Estou radiante com a explosão dela na tela. Comovido até, pois formei-a na CAL e ela permaneceu comigo na companhia por quatro anos. Agora estourou na minissérie. Fico superfeliz. Claro que a quero de volta (se um dia eu voltar a ter uma companhia de teatro no Brasil, coisa improvável), mas, mesmo se isso não acontecer, o sucesso dela e de Bruce Gomlevski só me deixam orgulhoso, feliz da vida, como um pai coruja.
E por favor parem de me perguntar se tive ou não tive um caso com a Camila. Existem mil perguntas mais interessantes, casos mais interessantes a serem contados nesses quatro anos de casamento artístico. A resposta é: NÃO! NUNCA tivemos nenhum caso, nunca fomos pra cama, nem nus, nem vestidos, sempre fomos cúmplices, sempre rimos muito de tudo e sempre fomos muito amigos e até brigamos. Sim, por sermos amigos, às vezes até brigamos.
E, finalmente pra terminar, logo antes de sair do Brasil, a Gabi me deixou um CD na recepção do meu hotel. Não sei porque relutei em ouvir. Acho que foi porque não gostei da cara dela na foto da capa. Mas, uma vez que coloquei o fone de ouvido e o CD rolou no player, mais uma vez não tive dúvidas de que essa mulher não é desse planeta. Mais uma dessas vencedoras superpoderosas em que a palavra carisma é somente uma maneira de se subestimar o TALENTO que ela (e sua magnífica voz) tem de interpretar o que ela vê, canta, representa, traduz pra nós. O disco é de uma beleza indescritível (quero saber o que ela cochicha pro Giane na quarta faixa). Gabi é uma artista total. So lhe falta a coragem agora de sair de trás daquela mesa de entrevistadora e dar vazão à sua vulnerabilidade e perder o controle. Artista perde o controle.
Philip, com a estatueta na mão, na hora do discurso, perdeu o controle. Cacá Diegues, em Deus é brasileiro, deixou sua mente fluir. Gabi, entregue-se de vez à arte. Quais provas mais você precisa: que o mundo se ajoelhe a seus pés? Saiba que tem um cabeludo aqui em Londres que já está de quatro ouvindo Perdida de amor, completamente perdido de amor.