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Lula, ratos e seios

HAMBURGO - Já não tenho mais unha pra roer. Não tenho nem mais aquela pelezinha em torno da unha. Meu nervosismo era tanto que grudei meus olhos na TV alemã o dia inteiro, madrugada adentro. Como a notícia principal do dia aqui foi a morte do príncipe Claus, marido da rainha Beatriz da Holanda (por acaso, um alemão), eu ficava (histérico) esperando os repórteres da ARD e da ZDF (canais alemães) entrarem ao vivo de São Bernardo do Campo, ou do Rio, mostrando imagens das eleições, das manifestações carnavalescas e uma prometida entrevista com o Lula, que acabou não acontecendo.

Eu torcia pelo Lula com lágrimas nos olhos. Mas as imagens que ocasionalmente invadiam a TV eram bem diferentes daquilo que pressupomos ser uma eleição. Era o Lula sendo empurrado, escoltado, se esquivando do ''assalto'' da mídia sobre ele. E, como não poderia deixar de ser, as reportagens preparadas dias antes só mostravam miséria. Eram ratos, esgotos, favelas, mais ratos, crianças com ratos, ratos sem crianças e crianças chafurdando no lixo.

Tá certo que o Brasil contém isso. Aliás, é o motivo pelo meu entusiasmo pelo Lula. Entusiasmo nada. Euforia, utopia e talvez até uma certa vingança ideológica de todas as outras revoluções ou reformas políticas que deram em genocídio, em censura, em exílio, em holocausto, na História da humanidade. Mas a miséria é o cartão-postal preferido da mídia internacional.

Mas, enquanto não entrava Lula, eu mudava de canal (ainda não instalei o cabo, então estou sem CNN) e zapeava os canais pornográficos (mulheres horrendas, lipo-não-aspiradas, coisas grotescas, tirando as calcinhas e sendo explícitas a respeito de suas capacidades genitais), indo até os seriados americanos dublados em alemão (é ridículo, horrendo, grotesco amputar a voz de um ator e substituí-la por um anônimo qualquer), até que terminei com Jim Jarmusch na tela.

De hora em hora, entrava alguma coisa live do Brasil. Eram números, eram especulações e eram as unhas, as peles, os ratos e as barrigas flácidas das turcas que se expõem na TV alemã.

Confesso que não é sempre fácil agüentar essa vida na fast lane. Às vezes parece masoquismo ou um estranho vício onde se acaba tendo que escolher a forma preferida de tortura: os choques são tremendos, desde o cultural ao social até o silêncio e a mentalidade dos lugares por quais a gente passa (e dos quais eu faço parte). Faz exatamente uma semana que eu ainda estava naquele Rio que o ''tráfico'' havia paralisado. Lojas fechadas, rumores de rajadas e uma espécie de pânico folclórico. No dia em que passei mudando de roupa em Nova York, senti um certo nojo das mesmas caras de sempre discutindo essa (ainda por vir) guerra contra o Iraque e outras mentiras e interesses corporativos do primeiro mundo. Como se não fosse suficiente, acordo no dia seguinte na Alemanha, com seus festejos da reunificação, um paradoxo em si, um problema ainda em plena busca de soluções reais (e, portanto, seu festejo não deixa de ser um simbolismo hipócrita), suas ruas mortas, seus bairros escuros e seus casais de classe média passeando em torno do Lago Alster.

O fato é que meu coração ficou aí no Brasil. É que, com a possibilidade da vitória do Lula (ai, meu Deus, mais três semanas de sofrimento!!!), o Brasil nunca esteve num momento tão vanguardista, tão experimental, tão glorioso e tão importante (internacionalmente) em sua história recente. Nesta última semana, eu só pensava na maravilhosa aventura em que poderia se transformar a vida e a cultura de um país, quando expostas a uma mudança tão radical.

O país experimental sobre o qual escrevi na semana passada será uma utopia ou o ''fator Brasil'' pode mexer realmente com o tal equilíbrio dos ''poderosos'' comandantes do mundo? O mais importante jornal deste país, o Die Zeit (semanal), trazia um manual compreensivo sobre o Brasil, desde um intenso e profundo artigo escrito sobre a TV Globo e seu poder hoje e no passado, até uma reportagem paternalista sobre Lula, intitulada O titio dos pobres. Título ridículo. Matéria interessante.

A pergunta recorrente (agora mais que nunca) é se Lula tem ou não o poder e a cultura de sentar na frente dos gigantes do dinheiro. Eu reverteria essa pergunta. Será que os gigantes do dinheiro manteriam a falsa pompa diante de Lula? Frente ao quadro mundial de insegurança financeira, o Brasil passa a ser uma peça muito mais importante nesse jogo de xadrez, cujas peças não são nem mais tão brancas e nem mais tão pretas.

Digo, se o Brasil assumisse esse papel - o de ser um país experimental e, portanto, não ter que se conformar com os padrões estabelecidos e não ter o compromisso de se comportar bem numa mesa de jantar dos falsos elegantes - e tivesse a coragem de peitar as mudanças (e as ocasionais vaias, assim como no teatro experimental), romper os protocolos, transformar o acúmulo revolucionário e poético do século passado (o modernismo, os concretas, o Cinema Novo, o tropicalismo) em política e em filosofia prática e decretar um novo estado de ''ser'' novo no mundo, não seria maravilhoso?

Seria. E, talvez assim, a baixa auto-estima brasileira acabaria de uma vez por todas, os corruptos e os ladrões não encontrariam clima ou território onde roubar, já que na escala maior das coisas o país estaria unido numa pacífica contravenção, assim como aquela proposta por Ghandi.

Digo, quando se tem no governo um aliado, muda toda a gesthalt da sociedade. Aqueles que roubam estariam cometendo uma espécie de ''auto-roubo'', o que não acontece, a não ser nos manicômios. E o único aliado nesse incrível momento histórico em que os valores do mundo estão desmoronando - ou caindo escada abaixo, como o Nu descendo a escada, de Marcel Duchamp - chama-se Luiz Inácio, ou ''Mahatma Lula Walensa Luther King da Silva''.

[08/OUT/2002]

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