Oldemário Touguinhó
Perseverança

Coisas da Política

Wilson Figueiredo
De eleitores e pesquisas

Informe JB
Alerta

Cartas
Juros

Horóscopo

Gente
Sex-appeal

Charge Online

Gerald Thomas
Gordurinhas localizadas

Márcia Peltier
Ex e atuais

Nelson Hoineff
Mercados de conteúdos

Nas Páginas da História
16 de julho no JB

Informe Econômico
Agradando em cheio

Boechat
Tempo quente









Gordurinhas localizadas

NOVA YORK - Quando você tira a roupa e se olha no espelho, o que você vê? A América ainda tem medo da nudez. E grande parte dela, mascarada pela hipocrisia corporativa, não se reconhece mais. Mas, na medida em que as máscaras vão caindo, o corpo e a cara desse império revelam suas doenças. É uma espécie de doença que afeta a raiz de tudo e todos e, no entanto, não deixa de ser uma doença imaginária. Grande parte da população americana já não cabe mais dentro de um espelho só. Precisa de dois. Uma companhia aérea instituiu que obesos têm que comprar dois assentos. E se, na hora do check in, o obeso não consegue dois assentos anexos?

Pois é justamente nessa esquizofrenia que reside grande parte do breakdown desse sistema. Quando a Wall Street se despe, o que se vê no espelho é ladroagem, fraude e corrupção da mais baixa qualidade. E, por Wall Street, pode se supor que as nossas vidas inteiras estão contaminadas, de casa em casa, de costa a costa, de loja a loja, de remédio a remédio, de notícia a notícia, de religião a religião: é tudo uma enorme mentira.

Dá vontade de perguntar quem é mais criminoso e quem causa mais danos a essa sociedade: Bin Laden ou esses CEOs ''puros, brancos e limpos'' que, com suas ladroagens, acabam, literalmente, com a vida de milhares de pessoas? O inimigo externo é mais perigoso que o interno? É porque sabemos que o sistema interno está em pleno colapso que estamos (digo, os EUA) em busca de uma guerra, em algum ponto remoto do planeta? Precisamos inventar um inimigo rápido. Bem, tem sempre o Saddam Hussein, um excelente coadjuvante canastrão (com bigode e tudo), nessa doença imaginária que chamamos de conflito mundial.

A corporation (essa palavra virou pejorativa) está se despedaçando. E a promessa de George W. era a de governar esse país como se fosse uma corporação. A família Bush (assim como a família Cheney) está enfiada até o umbigo em falcatruas (big big big big business), todas elas, desde o petróleo até a água que apaga o incêndio. Graças a Deus, o presidente é analfabeto demais pra ser um verdadeiro CEO. Nesse caso - e somente nesse caso - viva a ignorância de George W. Bush.

Em diversas ''reportagens investigativas'', lançadas logo depois que a obesidade foi considerada uma ''epidemia'' pelo governo (ou pelas companhias de seguro médico, ou por algum grande lobby em Washington DC querendo introduzir algum novo produto), foi decepcionante a performance da mídia ao cobrir essa questão. Principalmente no caso de Aaron Brown (simplesmente a mais brilhante cabeça jornalística no ar nesta Amérika, com ''k'' de Kafka), era de se esperar que ele, com seu silêncio cínico e genuinamente desconfiado da própria mídia da qual faz parte, fosse mais a fundo na questão. Mas não foi.

Comida não é brincadeira. É só assistir à TV. Se as reportagens fossem ao fundo da questão, certamente os anunciantes (63% dos anunciantes são da junk food industry) tirariam seus comerciais do ar. Bye bye jornalismo investigativo.

É incrível que, mesmo na CNN (conhecida por sua isenção - Ted Turner continua sendo macho, mesmo tendo sido incorporado pela AOL, que carrega esta coluna até vocês), reportagens sucessivas sobre nutrição se contradiziam grossamente. Muito se criticou na dieta do hambúrger, da Coca e das fritas. Mas ninguém colocou a junk food debaixo da lente do microscópio pra revelar exatamente quais são aqueles condimentos listados como special spices. Será que eles vêm dos mesmos laboratórios que desenvolvem os grandes vírus?

Muito se falou na obsessão que comida virou e como a propaganda atinge a garotada por todos os cantos. Mas muito pouco se falou dos hormônios e das drogas que integram a longa e indescritível lista de ingredientes dessa gigantesca indústria alimentícia.

Menos ainda se falou dos ingredientes psicológicos que criam a propaganda que vicia meio mundo nessas porcarias. Assim como a cocaína, a heroína e outras drogas, a junk food cria fissura nas crianças (existem estudos comportamentais interessantíssimos sobre o assunto). Assim como qualquer droga, a junk food cria crise de abstinência e histeria entre os milhões que a consomem. Mas nenhuma palavra sobre isso.

Obesidade é uma indústria, porque provoca o crescimento de outra indústria, a da dieta. É uma loucura o que se diz por aí. O tal do Atkins há 30 anos afirma que, pra se manter magro, é só ter uma alimentação à base de proteína e nenhum carboidrato. Mas a que custo? Quantos cânceres e doenças horrendas não são criadas por esses loucos e suas fixações pela magreza? E o que dizer da qualidade de vida?

Pra que viver 16 anos a mais, se nesses 16 anos se entra e sai de quimioterapias ou cirurgias ou outras mirabolâncias da medicina ocidental? E o lucro que se faz com a indústria médica que só existe para tentar corrigir os erros da indústria alimentícia? E o que fazer quando se descobre que ambas pertencem ao mesmo dono?

Julian Beck, vegetariano por sinal, já no fim de sua vida (estávamos em turnê, em Frankfurt, em 1985), no auge do seu humor judaico-living theater, me disse, no meio de uma refeição: ''Não há melhor dieta que a quimioterapia''. Alguns diriam que a bulimia é ainda mais eficaz. Ninguém mencionou a macrobiótica. Essa, sim, funciona. Mas dá muito trabalho.

E no mundo da correria corporativa ninguém tem saco de mastigar arroz integral cem vezes. Além do mais, diriam, é chato. É chato mesmo. Eu segui a macrobiótica por alguns anos. Nunca me senti melhor. Mas, ao sair de um ensaio de ópera, às duas da manhã, no meio da Áustria, o que se faz? Mete-se os dentes numa salsicha com salada de batata, num imbiss. Depois, passa-se dois dias com febre e um emplastro de tofu na testa.

Apesar do crescimento da indústria da health food, e da fixação pela ginástica, a América engorda a cada dia que passa. ''É genético'', diz um médico (desses que, supostamente, estudam esses casos há mais de 30 anos). ''Não é genético'', diz outro expert. Não dá mais pra acreditar nesses estudos médicos, publicados diariamente. Hoje em dia, o pior ator tem o centro do palco e a luz mais intensa.

Escrevo esta coluna ao ver o sol nascer sobre Manhattan, às seis da manhã. Com o fone de ouvido na maior altura, ouço Bethânia recitando Fernando Pessoa (é de arrepiar, nossa!) e me dá aquela crise indesejável de consciência, a mesma que assombrava a vida do genial poeta lusitano. É difícil viver a vida enxergando as rachaduras no chão em que se pisa. ''Não sei se a vida é pouco ou demais para mim. Não sei se sinto demais ou de menos. Seja como for, a vida, de tão interessante que é, a todos os momentos, a vida chega a doer, a enjoar, a cortar, a roçar, a ranger, a dar vontade de dar pulos, de ficar no chão e sair para fora de todas as casas, de todas as lógicas, de todas as sacadas e ir ser selvagem, entre árvores e esquecimentos'' (Fernando Pessoa).

Talvez Portugal - essa terra que é motivo de piada até na Europa - seja, na verdade, a mais plena tradução da sofisticação. Em sua simplicidade, angústia e tristeza, Portugal parece não querer inventar truques pra tentar ocultar o lado negro da vida, a dureza real que é viver, e investe no lamento. A Amérika investe nos disfarces, nos parques temáticos do escapismo. Comida é um deles.

Eu amo essa minha Amérika, principalmente se ela adotasse suas contradições e incluísse o ''k'' na sua grafia. Espero que nos tratem bem no hospital e que o seguro que (supostamente) cobrirá nossas despesas não declare falência na Nasdaq antes de os médicos nos darem alta.

[16/JUL/2002]

   Home > colunas > gerald
Primeira Página