À medida que o tempo passa, aumenta minha saudade do Muro de Berlim. Em que mundo seguro vivíamos! Era bipolar. Dois sistemas. Ambos tinham que se segurar, conviver, com medo do fim. Os físicos, ao criar a bomba atômica, pareciam - paradoxalmente - ter tornado o mundo mais seguro. A caixa de Pandora do fundamentalismo religioso ainda não fora aberta. Ela o seria, pelos norte-americanos, na década de 80, para lutar contra o regime comunista do Afeganistão. A CIA armou, treinou e criou Bin Laden e os mujahidins, fazendo-os lutar, em nome de Alá, buscando no Islã o seu lado mais negativo e desencadeando uma Jihad que nada tem a ver com a pregação do profeta Maomé.
Vencidos os comunistas afegãos - e iniciada a derrocada do socialismo real na Europa - a fúria islâmica voltou-se contra os seus criadores e resultou em episódios como a destruição de embaixadas americanas na África, no 11 de Setembro em Nova York e, provavelmente, no 11 de Março, os atentados em Madri. Novas ameaças andam no ar e na nota presumida da Al-Qaeda. E uma frase dá um frio na espinha: ''O vento da morte negra já está 90% pronto''. O que significa isso? O armagedon tornou-se possível? Quanto tempo levará até que uma grande cidade dos EUA, da Inglaterra, do Japão ou da Itália seja aniquilada por uma bomba nuclear como resposta à intervenção no Iraque?
No mercado negro de armas, após o colapso da URSS, surgiu material bastante para fabricar bombas à vontade. Além disso, mais de 80 artefatos nucleares, capazes de caber numa pasta, desapareceram nos últimos 12 anos dos arsenais da ex-URSS. É um milagre que ainda não tenham sido usados. Vale lembrar que ''morte negra'' é a peste bubônica, o que remete às armas de destruição em massa que Saddam não tinha, mas que existem em arsenais ''civilizados'', como os da Europa, dos EUA e da Rússia, e podem ser roubadas.
Mais uma vez o horror (injustificável) ganha ares de tragédia mundial por matar gente que ''vale''. Não me lembro de ter visto tamanha indignação quando 182 iraquianos e iranianos morreram - há menos de duas semanas - em Bagdá e Karbala, em atentados contra fiéis xiitas, reunidos para celebrar a ''ashura'', uma das suas festas mais tradicionais.
Se foi o ETA que matou em Madri (o que é pouco provável, a não ser que tenham mudado de método), há uma pergunta que deve ser respondida. Por que negar independência aos bascos? A cultura deles nada tem em comum com a espanhola, a língua é totalmente diferente. Dentro do quadro de uma Europa unida faz sentido conter separatismos se a economia caminha para ser uma só? Os bascos têm até motivos para radicalizar, já que a facção política que defende uma solução negociada - o Batasuna - foi proibida e empurrada para a clandestinidade pela direita espanhola. Sem canal político, os radicais ganham força e é perfeitamente possível uma associação entre terrorismos.
O mesmo quadro, de forma ainda mais brutal, ocorre na Chechênia. Os chechenos matam em metrôs, trens, teatros e prédios em Moscou. Só este ano, dois atentados, em um trem e no metrô moscovita, mataram mais de 80 pessoas. Mas o que os russos estão fazendo na Chechênia? Vejam filmes do que restou da capital, Grozny. É a mesma destruição vista em Cabul, no Afeganistão e (em escala mais reduzida) em Bagdá, no Iraque. Basicamente, massacre de civis.
Quem morre nos trens de Madri, nos ônibus de Tel Aviv, nas mesquitas de Bagdá, nas ruas das cidades palestinas, em Grozny, em Moscou, Cabul ou Nova York e até aqui no Rio são civis inocentes. Nas guerras modernas, o lugar mais seguro para sobreviver é o exército (regular ou irregular). Essa barbaridade dá uma razão de ser à pergunta dos terroristas: ''é legítimo que matem nossos filhos, mulheres, jovens e idosos no Afeganistão, Iraque, Palestina e Caxemira e esperem que seja pecado matar os deles''?
Por toda parte, a política de confronto multiplica o risco. Os muçulmanos julgam-se invadidos por uma cruzada e não deixam de ter alguma razão. Na memória coletiva deles permanecem bem vivos os massacres dos Cruzados, em nome de Cristo. O inimigo contra o qual o Ocidente luta hoje não é institucionalizado. É uma idéia, é mais do que isso, é um fanatismo, uma certeza, é uma fé. Quando alguém está disposto a morrer para nos matar e considera a hipótese com alegria, temos pela frente um inimigo temível.
De que adiantam arsenais nucleares, porta-aviões ou bombardeiros invisíveis contra isso? Não dá pra ganhar uma guerra dessas indo por esse caminho. Um mochileiro com explosivo plástico, um motorista, um marinheiro... Onde está o agente da morte? Continuando assim, as liberdades civis sofrerão e a democracia estará cada vez mais em perigo. Viveremos numa sociedade totalmente controlada por sensores e câmeras. Nos tornaremos cada vez mais paranóicos e acuados. O pior disso tudo é que talvez já seja tarde demais para tornar a fechar a caixa de Pandora.