Costumo dizer sempre que, para cada um de nós, há no máximo umas quinhentas pessoas no mundo. E o resto? O resto é figurante. Você já percebeu quantas vezes é surpreendido por coincidências incríveis? Alguém que você encontra bem longe de casa, que por sua vez conhece outra pessoa, que vem a ser a irmã de um grande amigo seu e casado com sua prima?
Pois é, aconteceu. Escrevi há alguns meses uma crônica intitulada Palimpsesto descrevendo minhas primeiras memórias infantis. Uma delas foi no porto de Gênova onde, minha mãe e eu, embarcamos em 1949, depois de uma peregrinação de Elsa da Alemanha até a Itália, à procura de uma nova vida, pois a dela fora destruída pela guerra. Perdera tudo: família, companheiro, casa e emprego e tinha no colo um filho.
Lembro-me da cena, com pouco mais de quatro anos, assombrado pela enorme massa do navio de casco preto de cuja chaminé, achava eu, maravilhado, saía uma voz que falava uma língua que não entendia. (Na época só falava alemão.) O navio era o ''Raul Soares'', do extinto Loide Brasileiro.
Passaram-se alguns meses depois da crônica e, um dia, recebi um e-mail de um velho marinheiro, o comandante Wellington, que dizia ser provável ter sido ele que me trouxe até meu destino, em Santos, pois chegara a comandar o Raul Soares em 1948 e 49. Liguei e marcamos um encontro. Imaginei que idade poderia ter alguém que já era comandante de longo curso quando eu tinha ainda quatro anos (hoje 59).
Na semana antes do encontro estava em Juiz de Fora, num emaranhado de galerias que cortam o Centro da cidade. Num desses labirintos há uma sucessão incrível de sebos e, num deles, numa vitrine, dei com um velho almanaque do Correio da Manhã, de 1950, ou seja, com as notícias de 49. Nas páginas 74 e 75 deparei-me com o relato (e fotos) do naufrágio do Magdalena, um navio de passageiros inglês, em viagem inaugural, que encalhara no arquipélago das Tijucas e partira-se ao ser rebocado, indo a proa dar a uma praia em Niterói, entre as pontas de Fora e do Imbuí.
Quando cheguei ao Rio, ainda menino, em 57, ouvi falar desse naufrágio e fiquei um monte de tempo com o livro na mão, pensando em comprar ou não. Acabei devolvendo-o à prateleira. No final de semana, no Rio, fui à Barra ao encontro de meu velho lobo do mar. Hígido, lúcido, aos 90 anos bem vividos, Wellington Geraldo de Barros foi todo afabilidade ao receber-me. Falou dos navios que comandou, em seu gabinete onde uma grande gravura mostra o velame de uma fragata em meio a outras coisas do mar.
Juro que a minha fantasia estava a mil. Um dos meus personagens favoritos de toda a literatura é Vasco Moscoso de Aragão, capitão de longo curso, do livro Os velhos marinheiros, de Jorge Amado, sua melhor obra. Mas Vasco é um comandante inventado, que compra sua carta para ter algum título e impressionar as mocinhas dos ''castelos'' da Bahia e, já velho, constrói para si uma vida de ficção e aventura até que um dia...
Meu comandante não tem nada de fictício. Começa logo dizendo que não é um ''lobo do mar''. Em sua vida comandou vários navios, mas o Loide o levou a morar em meio mundo, em terra firme, incluindo o Japão. Pergunto-lhe sobre o navio e ele me estende um papel com foto e dados do Raul Soares. Era um navio lento, dava no máximo 12 nós. Fora construído na Alemanha pela Hamburg Sud no ano de 1900, com o nome de ''Cap Verde'' e destinado ao transporte de emigrantes alemães. Era um navio considerado ''sortudo''. Cruzou duas guerras incólume.
Minha mãe e eu viajamos na terceira classe acomodados em beliches localizados em salões onde cabiam 30 ou 40 pessoas. Homens e mulheres eram separados. Os compartimentos eram abafados, o navio balançava e a viagem durava uns 35 dias. ''A maior parte do tempo os emigrantes ficavam mesmo no convés. Estendíamos uma lona sobre os paus de carga, arriados para protegê-los do sol e muitos passageiros dormiam por ali mesmo'', lembra o comandante. Eu, em minha imaginação, vejo cenas de Terra nostra. Devia, certamente, ser apinhado (afinal o Raul Soares era um navio relativamente pequeno, de 5 mil 909 toneladas), mas longe de ser dramático como o navio da novela.
Ninguém foi jogado ao mar, não houve tifo, mas é possível que grandes amores tenham surgido durante a travessia. Elsa, uma leoa, entrou e saiu do navio sozinha, agarrada a seu pequeno Bubi (menino em alemão, que é como ela me chamou a vida inteira). Uma mulher ainda jovem, de 29 anos, deixando tudo para trás e tendo à sua frente a esperança, a incerteza e o desconhecido...
(Continua)