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Ter razão cedo demais nem sempre é bom


Na Idade Média era perigosíssimo. Quanta gente não acabou na fogueira exatamente por esse motivo? Por dizer coisas, hoje óbvias, como a de que a Terra não é o centro do Universo, ou que gira em torno do Sol e não o contrário.

Graças a Deus, o mundo mudou, mas quando penso nisso, me vêm à cabeça dois episódios banais de razão prematura. Em 1983, há 20 anos, a revista Veja publicou uma pequena nota que fez furor. Tratava-se do ''boimate'', uma fusão de células animais (de boi) e vegetais (de tomate). A reportagem original fora publicada na revista inglesa New Science e se tratava de uma brincadeira de primeiro de abril que a Veja levou a sério.

Dizia a revista: ''A experiência de pesquisadores alemães permite sonhar com um tomate do qual já se colha algo parecido com um filé ao molho de tomate. E abre uma nova fronteira científica''. Foi um Deus nos acuda! Veja foi assediada por cartas e mais cartas de leitores divertidos ou indignados e o resto da imprensa, a começar pelo Estadão, fez questão de propagar aos quatro ventos a ''barriga'' da revista.

Um leitor, Domingos Archangelo, escreveu ao Jornal da Tarde uma carta furibunda contra a violação das leis naturais: ''Do alto de meus 76 anos, não posso ficar calado ante tal afronta às leis divinas. Boi nasceu para pastar, para puxar os saudosos carros do interior e para nos oferecer a sua saborosa carne. E tomate, além das notórias qualidades que se lhe imputam na cozinha, serve também para ser arremessado à cabeça de quem perpetua tal monstruosidade e, também, nas que dão guarida e incentivam tais descobertas''.

Santa ira! Mas o único erro da Veja era estar certa cedo demais. Quando a revista publicou a matéria sobre o ''boimate'', a palavra ''transgênico'' já existia. Fora usada pela primeira vez um ano antes, em 1982. No ano seguinte, ano da publicação do ''boimate'', nascia a primeira planta transgênica. A transgênese é uma biotecnologia aplicável em animais e vegetais que consiste em adicionar um gen, de origem animal ou vegetal, ao genoma que se quer modificar. Denomina-se transgene o gen adicional. O transgene passa a integrar o genoma hospedeiro e o novo caráter dado por ele é transmitido à descendência.

Hoje, quando falamos o tempo todo de soja transgênica, sem saber direito o que é, o anúncio do ''boimate'' não produziria o menor frisson, e muito menos as gargalhadas que motivou há 20 anos. O fato é que em nossos dias, pelo menos teoricamente, o ''boimate'' é perfeitamente possível, banal até. O que tem demais misturar material genético de células animais com células vegetais? O que são os transgênicos, senão isso? O ''boimate'' ainda não existe, mas nada impede que num futuro não muito distante possam ser criados tomates com sabor de molho à bolonhesa, e - por que não? - bois ''al sugo''.

O segundo episódio ocorreu em 85 ou 86. Eu estava em Paris, como correspondente do JB, e o correspondente do Estadão, Reali Jr., recebeu uma longa carta de um velho gráfico do jornal. Depois de muitos rodeios e explicações, ele acabava confessando que tinha ''um problema'' e que alguns amigos lhe haviam jurado que, na França, acabara de ser lançado um remédio, uma pílula mágica, capaz de voltar a dar alegria à sua vida. O nome da pílula já dizia tudo: ''Tesón''.

A brincadeira com o gráfico não nos fez rir devido ao tom confessional e angustiado de sua carta. Reali foi muito delicado e escreveu-lhe respondendo que, infelizmente, não tinha conhecimento de qualquer medicamento capaz de resolver o seu problema de forma tão prática e recomendava que o angustiado tipógrafo buscasse a ajuda de um urologista. ''Tesón'' simplesmente não existia.

Penso no gráfico quando vejo a capa da última Isto É. Nela consta apenas ''Não falharás'', como se fosse o 11º mandamento. Três sugestivos foguetinhos em trajetória ascendente ilustram a capa. O maior, o Viagra, domina 74% do mercado, o Cialis, outra pílula milagrosa, detém 22,2%, e o recém-chegado Levitra (com um nome bem sugestivo) é responsável por apenas 3,8% da ''levitrações''. O que era apenas uma brincadeira há cerca de 20 anos, corresponde - hoje - a um mercado (literalmente) em ascensão meteórica e que vai faturar US$ 4,5 bilhões vendendo comprimidinhos em 2004, em nada menos que 130 países.

Mas, devo reconhecer uma coisa. ''Tesón'' era muito melhor como nome para essas pequenas pílulas da felicidade.


[30/NOV/2003]


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