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Os cruéis ministros do governo canalha


Qual é a definição a ser dada a um governo que manda velhos com mais de 90 anos se arrastarem até os postos do INSS para recadastrar-se devido a suspeita de fraudes, com parentes recebendo pensões de já falecidos? Como definir um governo que suspende o repasse, pelo FUNDEF, de meros R$ 8 milhões de verba destinada a possibilitar que as APAES (Associações de Pais e Amigos dos Excepcionais) possam educar crianças com deficiências? Busco no Aurélio e a palavra que encontro é canalha, definido como ''vil, reles, infame e velhaco''.

No PS do artigo da semana passada, elogiei o ministro da Previdência (?) Ricardo Berzoini por corrigir a iniqüidade com os velhinhos. Foi erro meu, cobrado por vários leitores. É que estou atolado, até o pescoço, na criação de um jornal diário em Juiz de Fora, o Panorama, que começa a circular no dia 30 de novembro, e não assisti ao Bom Dia Brasil, da Globo, em que o ministro, arrogante, se recusava a pedir desculpas, enquanto o presidente Luis Inácio da Silva considerava tudo ''um simples erro operacional''. Mais tarde, Berzoini voltou atrás e começou a desculpar-se, mas sua real natureza - e a do governo que representa - já haviam sido expostas irreparavelmente.

Quinta-feira, este JB denunciava em manchete: ''INSS humilha e maltrata idosos'' e mostrava o circo de horrores a que os pensionistas da Previdência (?) estão sujeitos devido à insensibilidade dos burocratas. Com os impostos que pagamos (terceira maior carga tributária proporcional do mundo) e a qualidade africana (daquela África ''suja'') dos serviços prestados pelo Estado, o Brasil é o inferno na Terra para o infeliz que envelhecer e depender dos serviços públicos para sobreviver. Episódios como o de obrigar nonagenários a ir aos postos do INSS para cadastrar-se seriam considerados escandalosos em países mais justos e o governo teria que se explicar e provavelmente acabaria caindo. (Os países mais justos em geral são parlamentaristas).

No Brasil, para aposentar-se, o contribuinte tem que ser extremamente organizado. Não pode perder um simples papel, pois é ele, contribuinte, que terá que provar que tem direito ao benefício. A informática tem pelo menos 30 anos de existência e imagina-se que a Previdência (?) registre tudo o que recebe e tenha cadastros de seus contribuintes. Por que mandar o segurado (como um velho de 75 anos que acabou morrendo na romaria) de um posto a outro, muitas vezes em pontos extremos da metrópole, quando o razoável, civilizado e normal, seria ''mandar'' o computador apurar os pontos pendentes?

Ao aposentar-se, se você perdeu algo está frito. O Estado se exime de qualquer responsabilidade ou trabalho. Não se coça. Em países em que o cidadão é cidadão e os governos não tungam o dinheiro dos contribuintes, o trabalhador, ao chegar a hora de sua aposentadoria, recebe em casa uma carta da Previdência, informando-o de que tem direito ao benefício e marcando prazo e local para formalizar esse direito.

O recadastramento para coibir fraudes, devidas em boa parte ao caos que é o registro civil brasileiro, ainda hoje feito em cartórios, instituição anacrônica que nos foi legada pela colonização e inexistente em países desenvolvidos (na França, por exemplo, é o Estado que faz registro civil, nas prefeituras), deveria ser feito em casa. Não custaria à Previdência (?) aproveitar o período de férias para recrutar (e pagar) estudantes universitários que fariam amplo recadastramento domiciliar dos segurados idosos e acolheriam pedidos de revisão de aposentadorias.

Mas, ruim mesmo é o Doutor Palocci. O que dizer de um médico que considera que a educação de crianças com problemas mentais ou físicos ''contraria o interesse público'', conforme papagueou Luis Inácio? Como definir um médico que zela com tanto cuidado pelos 150 bilhões que os banqueiros nos sugam, ano após ano, sem baixar um centavo da monstruosa dívida que nos sufoca, enquanto veta reles oito milhões de reais para não prejudicar o superávit primário, mesmo a custo de deixar ao relento pais e filhos atingidos pela desgraça? Foi nisso que votamos? É isso que é o governo onde a esperança vence o medo?

Tá bem - dirão as eternas Polyanas que ainda tem alguma esperança nesse governo velhaco - em ambos os casos as medidas foram revogadas depois que a explosão de indignação popular tomou conta do país. O problema é que, até aqui, no governo, só funcionava o marqueting. E agora? Nem isso? Acorda Duda!

PS - E o ''castigo'' dos juízes que vendiam sentenças, hein? Eta país justo!


[16/NOV/2003]


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