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O cronista amargurado e o voto em R$ 3


Pois é, caros leitores. Andei relendo meu livro de crônicas, Dancing Brasil, e percebo que tenho estado amargo. Não consigo reencontrar o humor. O Flor do Lavradio parece que fechou as portas de vez e seu Manoel voltou para a Santa Terrinha; Magu, nosso bravo jornalista sueco, desistiu do boteco, largou a Lindalva, esqueceu dos rissoles divinos da Otília e deve ter se suicidado ou sido demitido, de vez, do Montbläat. Onde andará Rosalvo, o Despreocupado? Apolônio, o Indignado? E Wladimir, o último comunista? (Bom, um dos últimos, vá lá, há o Fidel, o Niemeyer e alguns outros por aí.)

Percebo que fazia humor sarcástico contra FHC com a maior facilidade, mas não consigo fazer o mesmo com o atual governo. Não consigo sentir senão raiva e frustração com o andar da carruagem. Fui, provavelmente, um dos primeiros jornalistas desencantados com o enorme estelionato eleitoral de que fomos vítimas. Muitos me chamaram de exagerado e impaciente. Velhos amigos passaram a olhar-me com desconfiança e todos acreditavam que, não havendo outro caminho possível (ao contrário de que se afirmava na campanha), o presidente e seu governo acumulavam forças para um ''segundo tempo'' em que tudo seria diferente...

Não me convenciam. Aliás, eu suspeitava de que um acordo havia sido selado às nossas costas, no dia mesmo em que FHC convocou todos os candidatos ao Planalto e conversou com um por um (mais com Luis Inácio). O que teria dito? Até hoje, o teor dessa conversa é tão misterioso quanto o foi o cochicho de Santa Genoveva aos ouvidos de Átila e que fez o Huno voltar pelo caminho que veio, desistindo de invadir Paris. Esta semana, recebi um e-mail de um amigo de infância (aliás, o meu mais velho amigo de infância, cursamos juntos o São Bento em São Paulo, que acaba de fechar as portas devido à crise).

Rui é o nome do meu amigo. Depois da posse passou a mandar-me e-mails zangados com a minha posição. Tinha uma fé de carvoeiro no presidente e no PT. Os meses foram passando e há dias surpreendi-me com sua mensagem. Vamos ao texto: ''Pois é, Fritz, o ano vai terminar e o meu propósito para 2003 esvai-se em promessas vãs. Não consegui fazer dieta, não comecei os exercícios e, por óbvio, não emagreci. Da mesma forma, foi-se a esperança que mantive em uma mudança de orientação no governo do PT. Infelizmente v. tinha razão. Aliás, muito infelizmente, pois, lá na frente, que nova esperança poderemos ter? Qual o partido ou o candidato que poderão nos trazer a confiança que depositamos durante tantos anos no PT? Foi um ano de m...! Um abraço. Rui''

As perguntas do Rui são pertinentes e preocupantes. O que vamos fazer agora? Em quem votar? Onde depositar a enorme esperança frustrada em dias melhores? Agora temos um governo com um núcleo duro composto de egressos do trotskismo e estalinismo (são irmãos gêmeos, a história do socialismo real teria sido praticamente igual sob um ou outro). Há um minúsculo politburo que manda e os demais fazem apenas figuração. Não há um compromisso democrático explícito e, pessoalmente, duvido que alguém como Laurenti Béria, perdão, José Dirceu, tenha amor à democracia.

Esse bastião totalitário, que encara a imprensa com a mesma desconfiança dos militares, está a serviço dos banqueiros, o que é uma situação capaz de enlouquecer de vez o editor do Montbläat. Imaginem dizer a um sueco que o governo ''transformador'' teria a coragem de propor a retirada de R$ 3,5 bilhões da verba obrigatória para a saúde e destiná-los ao pagamento dos juros cobrados pelos banqueiros. Da mesma forma que fez com os transgênicos, o governo de Luis Inácio ignorou a Constituição e as leis.

O presidente extrapolou ante a reação de políticos e a advertência do procurador-geral da República, Cláudio Fonteles, e chamou os que protestavam de ''Lobistas da Saúde''. Para quem defende uma multinacional que monopolizará as sementes de soja transgênica e o poderoso agrotóxico que combate as pragas dessas plantas (inicialmente anunciadas como resistentes a pragas), chamar alguém de lobista é no mínimo uma impropriedade.

Pois é, meu caro Rui, não consigo brincar com o PT como brinquei com os Tucanos. FHC não me enganou. Saiu logo com ACM à frente e não votei nele. No PT, depositamos esperanças e hoje temos colloridos, Sarneys, bispos picaretas e esse aleijão que é o PMDB grudados num governo que favorece o capital especulativo, promove a queda da renda dos trabalhadores em 14,6%, aumenta o desemprego e a informalidade e substitui progresso por esmola. Pobre Brasil. Se eu continuar tendo razão (e tomara que não tenha, já o disse algumas vezes), na próxima eleição votarei em R$ 3. Esse é o preço da multa por ficar em casa no dia da eleição. Se é para ver meu voto vilipendiado desse jeito é melhor não me dar ao trabalho de fazer o papel de palhaço. Tô fora!


[26/OUT/2003]


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