As coisas que a gente faz entre quatro paredes podem ser surpreendentes. Nas últimas semanas quase todo o meu tempo livre foi gasto na construção de uma minúscula rampa que pudesse ser vencida por uma pequena locomotiva elétrica, puxando um comboio de diminutos vagões. Não se trata de problema de física. É apenas a construção de uma minicidade e pequena ferrovia onde posso exercer o meu vício secreto: brincar com trenzinhos elétricos. Pronto! Lá se foi o que me restava de credibilidade! Mas é lindo construir mundos em miniatura e ver as minicomposições passando, com o cenário iluminado por centenas de lâmpadas, do tamanho de grãos de arroz. Cheiro de ozônio, vício puro...
Mexendo em caixas com trens mais velhos, Lionel, e alguns Marklin do tempo da 2ª Guerra, relíquias que estavam guardadas na casa de minha sogra, descobri vagões e pequenos prédios de estações esquecidos e embrulhados em pedaços de jornal, velhos e amarelados pelo tempo. Exemplares de uma sexta-feira, 29 de dezembro de 1995, primeiro ano da era FHC. ''E daí?'' perguntará você. E daí que através dos pequenos trens entrei direto no túnel do tempo e vejam só o que me foi revelado:
''Taxas de juros vão cair em 96, mas continuarão altas'', diz a chamada, informando que as taxas para uso de cheque especial cairiam de 10% mensais para 9,7%. Segundo o então diretor do Citibank, João Pedro Paro Neto, a queda era ainda ''muito tímida, mas o governo sinaliza com uma tendência que tende a acentuar-se''. Ilusão. Hoje, oito anos depois, o Citi ainda cobra 9,5% ao mês de juros pelo uso do cheque especial.
Leio outro pedaço. Desta vez é um jornal paulista que anuncia: ''MST decide romper acordo e anuncia onda de invasões''. A situação estava tensa no Pontal do Paranapanema naquele final de ano do século passado e a ação dos sem-terra era comandada por José Rainha Jr, hoje preso, junto com sua mulher, acusado de porte ilegal de arma e formação de quadrilha, mas considerado por muitos como um preso político, o primeiro preso político do governo do neoPT. O MST continua aí e a situação da terra, irresolvida como sempre.
Numa nota de coluna, o jornal informa que: ''No silêncio do recesso, o PSDB filiou mais três deputados federais, dois no Pará e um no Ceará. Deve iniciar o ano com cerca de 90 deputados. Não quer alarde para não provocar reação dos aliados no Congresso''. Estranhos costumes políticos tinham os parlamentares naqueles idos. Ainda bem que votamos no PT para que esse troca-troca imoral de siglas partidárias acabasse...
''De olho em ministério, PPB defende a reforma'', informa o título de uma página rasgada. A reforma, no caso, era a ministerial, mas o presidente (FHC) informava que não pretendia mexer no ministério ''antes da votação das reformas no Congresso''. (Como esse Congresso vota reformas. O Brasil não fica pronto nunca!) Na mesma reportagem, o então ministro do Trabalho, Paulo Paiva, defendia a reeleição do presidente: ''mandato de quatro anos é pequeno''. Parece familiar?
O país ganhava destaque no mundo segundo o presidente Fernando Henrique, que afirmava que ''o Brasil já é respeitado no exterior''. Numa peça mostrada na TV, FHC aparecia cumprimentado por líderes mundiais, como Bill Clinton. O jornal informava que: ''o marketing externo de FHC vem sendo trabalhado desde o primeiro dia de seu governo. Suas aparições políticas ultrapassam as fronteiras do país. O presidente quer se tornar um líder mundial''. (Depois chegou o PT e o presidente prometia ''mostrar o Brasil'' a seus ministros, lembram?) E Malan previa melhora da situação econômica e afirmava que ''1996 vai ser o ano da verdade'', anunciando mais equilíbrio nas contas públicas.
Não vou tirar mais conclusões, caro leitor, tire-as você. Eu vou embrulhar, com esse jornal que você está lendo, alguns vagões para ''descobri-los'' novamente em 2011. Quem sabe se até lá, finalmente, muda alguma coisa neste Brasil?
PS - Peço desculpas aos contadores pelas referências que tenho feito à equipe econômica usando esses profissionais como parâmetro. Fui preconceituoso, reconheço. Quando me referi a ''contadores'' (deveria ter usado aspas), falei de alguém que zela, nos livros, pelos ganhos dos que nos exploram. Nada a ver com os laboriosos contadores que nos ajudam.
PS2 - Bom o estatuto dos velhos, embora só estatuto não resolva. Está aí o da criança e vejam a situação trágica da infância brasileira. Errado é o debate sobre velhos e planos de saúde. O que é preciso é criar um sistema público e universal de saúde que funcione, como nos países civilizados, dandotoda a assistência, dignidade e inclusive remédios aos velhos. Esse ministro Humberto Costa faz a gente ter uma saudade danada do Serra...