UM - Juro que nunca mais acabo uma coluna escrevendo ''continua''. Cria compromisso inadiável, cobranças e a expectativa de um texto melhor e mais engraçado. Ai de mim! Por que me meto nisso? Prometo (é a última vez que o faço) que a crônica dos tradutores terá seqüência. Por enquanto, como tira-gosto, fica com vocês um sensacional ''Filet de peie Meumeir'' (o que será isso?) que consta do impagável cardápio maluco do hotel brasiliense.
Com algum esforço é possível deduzir que se trata de um ''Filé de peixe au Meuniere''. O tradutor-robô ao ver peie, em lugar de peixe, aceitou adotando o verbo pear (amarrar com peias, estorvar) e resultou nisto em inglês (?): ''Filet of it fetters Mumeir'', ou ''Filé de amarra (empecilha ou acorrenta) Meumeir''. Tadinha da Meumeir...
DOIS - Recebi uma carta do ministro Cristovam Buarque, que transcrevo: ''Concordo que não basta ensinar as letras, precisa manter o povo lendo e vamos conseguir. Vai ter sim 'biblioteca em Guaribas', de 10 livros, ou cem livros, mas vai ter pelo programa de leituração que está em marcha, devagar, mas já está. No governo do DF fizemos isso nos mais pobres bairros, colocando biblioteca em uma casa de cada rua. Isso é perfeitamente possível de fazer no Brasil inteiro, no ritmo que depende das pressões, dos apoios. Já estamos com o programa de agentes de leitura, onde carteiros, que estão em todas as partes, levam livros para as pessoas lerem, ou pegarem apenas, como fazem os meninos, no começo com as bolas de futebol''.
''No mundo da política há os que escolhem ser vitrine e os que escolhem ser pedra. E aqueles que ficam mudando de lado, de pedra para vitrine ou vice-versa. E há aqueles que querem ser as duas coisas. Mesmo que pareça, ou seja, esquizofrênico. Quando eu estava na oposição nunca fui só pedra, assumi sempre o risco de fazer propostas, quando fui reitor às vezes escrevia artigos no jornal da universidade criticando a própria administração para ver se mobilizava os estudantes contra a lentidão da máquina burocrática. No governo, como ministro, não quero ser apenas vitrine. Sem medo de ser vitrine quero também ser pedra, como forma de fazer avançar a educação, quando o ministério estiver indo devagar''.
''Os governos que desejam mudar sofrem de três problemas sérios: a perda da capacidade de indignação diante dos problemas, o deslumbramento com o poder e suas liturgias, e as dificuldades de fazer a máquina andar. Só com críticas, mobilizações, sobretudo de jovens, os governos avançam na velocidade que o povo precisa. Só esta mobilização é capaz, por exemplo, de fazer o governo canalizar a energia nacional em uma direção ou outra. Porque os recursos são limitados, e é preciso manter a estabilidade monetária, o que exige rigor na responsabilidade fiscal. Mas é preciso também responsabilidade educacional, o que exige escolher o destino da energia que o país tem. E definir o tempo. Talvez não tão depressa quanto gostaríamos, mas com uma esperança nítida, no futuro. Abraço, Cristovam''.
Gosto da capacidade de sonhar do ministro Cristovam. Para mim isso não representa um caput diminutivo, muito pelo contrário. Só os visionários, os sonhadores, os que enxergam além do horizonte nos fazem avançar na História. A ''utopia do possível'', tão do agrado de FHC e adotada pelo neoPT, é uma condenação ao marasmo e à mediocridade. Temo que a alma do professor Cristovam não caiba no figurino apertado e tacanho do neoPT e o ministro acabe indo para casa mais cedo do que devia.
TRÊS - Quando votei no PT (declarei meu voto aqui nesta coluna), votei pela educação e para que, entre outras coisa, o BNDEs deixasse de ser hospital de empresas mal administradas e o capitalismo não fosse isento de risco. O setor elétrico foi privatizado com dinheiro público (muitas vezes por empresas que se envolveram em fraudes em seus países de origem), e quando ameaça dar prejuízo no Brasil vira tudo ''estatal'' de novo e o nosso dindin, mais uma vez, é mobilizado para evitar que tenham prejuízo.
A nós, contribuintes/ consumidores, que financiamos a coisa toda, só restará meter a mão no bolso e ficar com o prejuízo. O que mudou mesmo com a eleição de Luis Inácio da Silva? (Na coluna passada, o excesso de zelo do revisor incluiu Lula no nome do atual presidente. Alguns leitores atentos perceberam. Lula foi o candidato que elegemos para transformar o Brasil e abrir as portas da esperança. Não é o que estamos vendo...)
QUATRO - Por que o silêncio em torno do episódio Fasano-Carta? São figuras públicas que não deveriam ser beneficiadas, ou prejudicadas, por sua posição social. Se não estivessem no topo da pirâmide teriam direito ao mesmo tratamento? Nesses casos o segredo estimula a especulação, faz imaginar e só prejudica a quem pretende proteger.