Você já ouviu falar em Johana Doberheiner? É provável que não. Johana viveu praticamente ignorada pela imprensa. Não participou do
Big Brother, não casou com jogador de futebol, nem brilhou nas passarelas. Johana foi uma cientista. Pesquisou uma bactéria que fixa o nitrogênio ao solo. Seu trabalho permitiu expandir a cultura da soja ao cerrado, aumentando enormemente o potencial agrícola do país. Exportamos cerca de US$ 6 bilhões anuais de soja e pesquisas como a de Johana e de outros cientistas, notadamente da Embrapa, aumentaram, e muito, a eficiência e qualidade da agroindústria, responsável, hoje, por 25% do PIB e por 40% da mão-de-obra brasileiros.
Johana já morreu e merecia pelo menos uma estátua, mas só ganhou esquecimento. Querem um exemplo? Vão ao Google, a ferramenta de consulta mais popular da internet e digitem ''Johana Doberheiner''. Na tela do micro aparecerá uma única referência a ela. Associem com ''inteligência'' ou ''inteligente'' e verão que não há registro na internet. Experimentem teclar ''Fernandinho Beira-Mar''. Surgirão 10 mil 200 referências a esse bandido, 1 mil 120 das quais associadas a ''inteligência'' e 521 à expressão ''inteligente''.
É óbvio que há algo de errado e me pergunto sempre se o jornalismo, se nós, os jornalistas, não estamos na raiz desse problema. Muitos leitores já me perguntaram sobre a nossa predileção por bandido, por crime e sobre nossa ignorância em torno de assuntos (e pessoas) importantes. Sempre respondo que a imprensa vive do excepcional, mas reconheço que é um pobre argumento. Certo, o bandido que atende pelo diminutivo carinhoso e familiar (por que tratá-lo assim e não pelo nome?) é fora do comum, mas Johana não seria muito mais excepcional? Ela expandiu a fronteira agrícola, gerou divisas, renda, e matou a fome de milhões. O feito mais excepcional da vida do traficante foi comandar, pelo telefone, o esquartejamento de um rival no amor. (Se é que a palavra ''amor'' cabe nesse contexto.)
A meu ver, os jornais prestam pouca atenção a muitas coisas importantes e atêm-se cada vez mais ao registro do factual preguiçoso, o que fica evidente na maneira como a imprensa - em geral - cobre o noticiário político a partir de Brasília. (E isto não é uma crítica a qualquer jornal em particular, é questão que deveria ser discutida por todos.)
A explosão do VLS-1 na plataforma em Alcântara, matando 21 técnicos, é um exemplo da pouca importância dada pela imprensa a assuntos relevantes. Tal como ocorreu com o trabalho de Johana e de outros cientistas, o programa espacial brasileiro não mereceu uma cobertura adequada. Foi preciso uma tragédia para ficarmos sabendo que, desde o governo FHC, investimos cada vez menos nesse projeto, vital para concorrer com os países desenvolvidos no decorrer do século 21. O problema continua no governo atual.
O Brasil, até hoje, não conseguiu dominar a tecnologia do combustível líquido para foguetes, mais segura do que os verdadeiros barris de pólvora que são os foguetes de combustível sólido. Brasil e Índia começaram a pesquisar o assunto ao mesmo tempo, nos anos 60. A Índia investiu, tão sagradamente quanto a vaca, entre US$ 400 e US$ 500 milhões anuais. Resultado: hoje lança satélites rotineiramente com foguetes de combustível líquido. Enquanto isso, nós, que chegamos a gastar até US$ 120 milhões por ano no programa, hoje não chegamos a US$ 30 milhões. Conseguimos lançar três foguetes em seis anos com três explosões, a última trágica, privando-nos de quadros que só serão repostos em pelo menos 10 anos. Fracasso de 100%, um recorde e um atraso de mais de 40 anos.
A pesquisa espacial não é dinheiro jogado fora, nem deve ser prejudicada pelo superávit feito para enriquecer banqueiros. Cada quilo de material fabricado pela indústria aeroespacial gera um valor agregado de US$ 50 mil. Só para comparar, a Embraer, nossa principal exportadora de ''inteligência'', agrega US$ 1 mil a cada quilo de avião produzido. No ano 2000 o lucro do setor aeroespacial foi de US$ 125 bilhões e o crescimento na área chega perto dos 10% anuais.
Em Alcântara temos uma das duas melhores bases de lançamento do mundo. A outra é Kuru, na Guiana Francesa. Enquanto os franceses e europeus ganham cada vez mais dinheiro, aqui padecemos de recessão, covardia e atraso. Talvez seja hora de parar de exaltar o que não tem importância e voltar nossa atenção para aquilo que pode fazer a diferença entre a grandeza e a mediocridade. Cabe a nós, jornalistas, escolher.