Sonho com Dona Teteca, minha implacável professora de português. Ela aparece, brandindo um exemplar do
JB com a segunda parte do artigo
Educação! Educação! .
Passa-me um sabão danado. (A expressão esporro - chula - ainda não existe em meus sonhos.)
- Seu analfabeto! Não foi isso que te ensinei! Não podes errar a concordância!
Assustado, leio um texto meu que o JB publicou no domingo passado: ''Um dos romances que mais marcou minha adolescência...''
Sinto um frio na espinha e balbucio:
- Desculpe dona Teteca... Eu me distraí.
- Escreva mil vezes: ''Um dos romances que mais marcaram minha adolescência!''.
Conformado, pego uma resma de papel e começo a escrever, pensando: ''Poxa, logo num texto sobre educação!''
Acordo, sobressaltado e ofegante. Perdão, leitores.
Volto a dormir. Vejo-me num país em que o ministro da Educação é o homem mais importante do governo. O país - seria o Brasil? No sonho é parecido... - é sacudido por um movimento de opinião pública semelhante ao do abolicionismo. ''Não podemos mais conviver com essa praga, esse atraso que nos envergonha e apequena no concerto das nações!'', clama o ministro, veemente e aplaudido pela multidão, que grita em uníssono: ''Educação já! Educação já!''.
Desperto novamente. Deve ter sido algo que jantei... Pego o jornal e leio: ''Cansado de ter seus pedidos de verba negados por Antonio Palocci, em reuniões de trabalho, Cristovam Buarque (educação)...'' Estou no Brasil, em 2003, e o governo é de Luiz Inácio da Silva. O sonho acabou.
Proporcionalmente, o Brasil está na média mundial em gastos com educação. A situação parece boa quando vista sob esse prisma. Mas, o problema das estatísticas é que elas são enganosas e os nossos governos (incluindo o atual) são mestres em usar dados para simular progresso, enganar a patuléia (é assim que eles nos vêem) e esconder iniqüidades.
Entre os 100 países que mais investem em educação ocupamos a 45ª posição. Gastamos 4,75% do PIB, exatamente a média mundial, segundo a Unesco. Estamos empatados - estatisticamente - com os EUA e a Inglaterra. Qual é, então, o problema? Parece razoável, não é? Não é não. É um desastre!
Vamos abrir a caixa preta e observar os números de outro jeito, bem mais realista, para chegar a uma conta que aplique o mesmo critério para todas as realidades. O PIB brasileiro, em 2001, foi de US$ 502 bilhões. Somos 175 milhões de brasileiros. Nosso gasto com educação foi de 4,75% do PIB. Se fizermos a conta e dividirmos pelo número de habitantes, concluiremos que o Brasil investe o equivalente a US$ 140 anuais per capita com educação.
Aplicando o mesmo percentual ao PIB e à população dos EUA constataremos que os norte-americanos investiram mais de 10 vezes o que aplicamos: exatos US$ 1, 549 mil para cada americano. O Reino Unido, pelos mesmos parâmetros, investiu US$ 1,108 mil por inglês, pouco menos que os franceses, com US$ 1, 213 mil por cabeça, US$ 1, 192 mil dos israelenses, US$ 1, 615 mil para os finlandeses (a Finlândia é hoje um dos pólos da alta tecnologia mundial) e fabulosos US$ 2,399 mil por habitante que os dinamarqueses destinam à educação. Assim, para chegar ao patamar de país desenvolvido, deveremos multiplicar nossos investimentos em educação por 10, uma verdadeira revolução, inadiável, sob pena de perdermos o século 21.
O primeiro passo seria varrer para o lixo a república dos contadores que nos atormenta e atrasa há mais de 20 anos. Malans e Paloccis deveriam ser reduzidos à sua real dimensão. Meros técnicos, contadores, jamais formuladores de políticas. Educação não é gasto. É investimento de alto retorno, indispensável para o desenvolvimento e a independência de uma sociedade. Países como a Coréia e a Irlanda investiram maciçamente em educação nos últimos 40 anos e estão, hoje, na ponta de amplos setores da tecnologia. A Coréia do Sul (do tamanho de Santa Catarina) exporta três vezes mais que o Brasil e produtos com alto valor agregado. São US$ 150 bilhões contra US$ 58 bilhões verde-amarelos. Até a Irlanda, menor que a Coréia, exporta mais que nós (US$ 80 bilhões).
A educação faz a diferença e gera riqueza. (Continua no próximo domingo.)