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O soldado sem culpa

Imaginem a seguinte situação: um militar americano no Iraque observa um conjunto de construções onde integrantes da Guarda Presidencial de Hussein estão entrincheirados, mantendo, sob coação, como escudos humanos, centenas de civis inocentes, incluindo várias dezenas de mulheres e crianças.

O militar pode recriar o inferno usando seu computador portátil. O apertar de um botão ou a digitação de uma senha, seguida de enter, desencadeará uma tempestade de chamas, de explosões ensurdecedoras, tornando o ar quente, ácido e irrespirável. Em meio a gritos de pavor e agonia, pedaços ensangüentados de corpos de homens, mulheres e crianças serão atirados longe, juncando o campo de batalha.

Mais um ataque cirúrgico será visto pelo soldado e pelos espectadores da CNN. Uma tela iluminada por uma grande luz, seguida de uma explosão. Seca, sem som, asséptica, impessoal. Mas, se levantar os olhos da tela, o soldado terá consciência imediata do mal que fez, ou melhor, que ainda não fez, pois, até aqui, ele ainda não apertou a tecla. Apenas imaginou, avaliou, pesou o que o botão, uma vez apertado, fará.

Como o nosso soldado é um ser humano normal, com valores éticos e morais, sua consciência, provavelmente, lhe dirá que não deve matar reféns indefesos e ele começará a pensar em algum outro meio de desalojar o inimigo. Apesar de ser veterano calejado e já ter matado em combate, o nosso soldado não suportaria a idéia de massacrar crianças. Muitos veteranos da Guerra do Vietnã sofrem até hoje de uma doença conhecida como estresse pós-traumático, derivada do que viram ou fizeram na guerra. O nome que o homem dá a isso, desde os primórdios da História, é mais simples: consciência.

Mas admitamos que o soldado com o laptop tem, entre o seu equipamento de campanha, uma pílula que toma e lhe garante que não terá pesadelos, nem remorso, nem culpa por matar civis indefesos. A consciência abolida pelo medicamento. Matará e dormirá em paz, poderá até relembrar vagamente o episódio e - talvez - achá-lo interessante.

- Ora dane-se, faço e tomo a pílula - pensa e aperta o botão da morte.

Por enquanto, essas pílulas ainda não estão disponíveis, mas a possibilidade de elas existirem num curto espaço de tempo é bem real. Há inúmeras instituições nos EUA pesquisando o assunto, inclusive com verbas federais. Entre eles estão alguns dos mais respeitados centros de pesquisa e ensino do país, como as universidades de Harvard, da Califórnia, de Nova York e a Columbia.

Os cientistas sabem que os sentimentos de culpa, remorso e o medo viajam através de nosso sistema nervoso da mesma maneira, irradiando-se a partir de um denso novelo de fibras nervosas conhecido como amídala cerebral. Eles descobriram que ao inibir o medo e as memórias traumáticas podemos inibir também a culpa e o arrependimento.

Na Universidade de Nova York, pesquisadores estão aprendendo os meios de causar um ''curto'' nos circuitos da mente que regem o medo primal. Na Universidade de Columbia, descobriu-se um gene relacionado com a produção de uma proteína inibidora do medo. Cientistas estão estudando meios de fazer o cérebro ''desaprender'' o medo e as inibições estimulando-o eletronicamente. Em Harvard, sobreviventes de acidentes de automóvel estão tomando comprimidos de propanolol (um betabloqueador, medicamento contra a hipertensão) nos primeiros estudos sobre o efeito dessa droga em reduzir os efeitos dos traumas.

Cada nova experiência, assustadora ou humilhante, ou até mesmo a repetição de uma experiência antiga, provoca a liberação de hormônios que cauterizam impressões horripilantes em seu cérebro. O que é insuportável torna-se inesquecível. A não ser que se atue rapidamente para bloquear memórias traumáticas antes que elas se instalem. É esse fator limitador, criado pela natureza, que impede que ultrapassemos certas barreiras mentais. Até para um agnóstico como eu o fato de termos essa bioquímica da consciência seria um argumento em favor da existência de Deus. Há muitos cientistas que acham que certas coisas deveriam ser deixadas como estão. Devemos viver com nossos medos e culpas. Medicalizar e eliminar a consciência fará com que deixemos de ser seres humanos.

Os cientistas que estão pesquisando essa ação bioquímica sobre o medo e a culpa não pensam em criar psicopatas. Eles tentam minimizar o estresse pós-traumático, como por exemplo o de uma mulher que foi estuprada, o de vítimas de assaltos ou acidentes e até o de soldados que não suportam lembrar o que viram nos campos de batalha.

Mas o uso militar de tais instrumentos vai criar exércitos de psicopatas, programados para matar sem qualquer culpa ou remorso. Chegaremos a um nazismo bioquímico.

Barry Romo, coordenador nacional da Associação dos Veteranos do Vietnã Contra a Guerra declarou ao jornal Village Voice, decano da imprensa alternativa nos EUA que se ocupa do assunto, que essa pílula “é a pílula do diabo, a pílula do monstro, a pílula anti-moralidade. É a pílula que pode fazer homens e mulheres fazerem o que quiserem, mesmo atrocidades, e não sentirem qualquer remorso, culpa, nada. Só o simples fato de imaginar que algo assim possa funcionar é de arrepiar”.

A infame desculpa nazista de Nuremberg, “Eu só estava cumprindo ordens”, mostra até onde o ser humano pode chegar quando sua consciência é neutralizada. Se, como quer o Pentágono, essa pílulas passarem a existir, os soldados terão muito menos escrúpulos antes de atirar para matar.

Desde a Guerra do Golfo, os militares americanos são treinados psicologicamente para serem dessensibilizados emocionalmente. Por exemplo: ao entrar numa sala e ouvir os gritos de alguém sendo torturado na sala ao lado, ou de uma mulher sendo estuprada, esses soldados não reagiriam nem se sentiriam perturbados. Desde o advento da luta anti-terrorismo, restrições morais a práticas como a tortura têm caído sistematicamente nos Estados Unidos. A tortura é defendida por muitos militares e membros do establishment e não é a primeira vez que isso acontece. Afinal quem ensinou a nossos milicos e policiais a arte de torturar? Remember Dan Mitrione...

Recebi alguns e-mails pedindo paciência com o governo Lula e outros dizendo que sou o primeiro desencantado com o governo do PT. Não estou desencantado nem impaciente. Declarei voto em Lula e apanhei por isso, mas não cessei de chamar a atenção, durante toda a campanha, para a transformação do PT e a falta de programas e de políticas públicas para erradicar a miséria no espaço de uma geração.

Transcrevo texto que publiquei no Pasquim em julho de 2002: “Qualquer que seja o próximo presidente da República, ele já chegará amarrado por um pacto feito com o empregado do megaespeculador George Soros (Armínio Fraga), com Pedro Malan e com o FMI. O pacto é manter a política econômica para não assustar os todo-poderosos investidores. E todos os nossos candidatos ‘esquerdistas’, a começar pelo Sr. Luiz Inácio Lula da Silva, vão dizer, contritos e obedientes, os seus atos de fé. Não importa a eleição, caro eleitor, nosso futuro já está decidido e quem decidiu foram o mercado e os investidores”.

[02/FEV/2003]

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