Graças à gentileza de uma grande amiga, Kristina Michaelis, estou ouvindo aos 58 anos - pela primeira vez - a voz de meu pai. Na bagagem de Elsa, minha mãe, encontrei há anos um maço de cartas que ele mandou diretamente da frente de batalha. Escreviam-se praticamente todos os dias. Muitas se perderam, mas os papéis amarelados em minha mão, em letra miúda e em alemão, eram um mistério para mim. O que dizia Fritz à sua amada Elsa? Tentei (re)aprender alemão para entender, mas sou vítima de uma espécie de bloqueio psicológico e as cartas continuaram misteriosas até que Kristina as viu e decidiu presentear-me com a tradução.
Logo na primeira carta veio à tona um amor apaixonado, com jeito adolescente. Fritz, meu pai, tinha 28 anos quando a escreveu e estava a pouco mais de dois meses de sua morte. Não usava vírgulas, tal a sua ansiedade. As vírgulas foram adicionadas por Kristina. Ele e Elsa estavam tentando, desesperadamente, casar-se, mas o nazismo fazia exigências absurdas, tais como uma ''avaliação racial e política'' da noiva e de sua família antes de autorizar o casamento. Tudo isso porque Elsa não era ''ariana''.
Fritz estava revoltado, tinha que buscar documentos na SS para provar que Elsa não era judia ou descendente de judeus. Na carta há referências a fotos. Vi essas fotos quando menino. Eram de frente e de perfil, fotos de polícia. Fritz não esconde sua raiva com as exigências nazistas e o seu desejo de que a guerra acabe, desafiando a censura militar.
Ele escrevia de Elsenborn, uma aldeia em território alemão entre o Reno e o Mosela, na frente ocidental, perto de Luxemburgo. Os exércitos americano e inglês já lutavam em território do Reich. Fritz poderia ser acusado de derrotismo, pois desejava o fim da guerra enquanto sabia que a Alemanha estava por um fio.
Apareço na carta de modo indireto, mas definitivo. Ele se assina ''Papi Fritz'', papai Fritz. Elsa já estava grávida, uma das formas de acelerar os trâmites do casamento. A mim, além da tristeza de não ter podido conhecê-lo, restou o consolo de ser filho de um grande amor, amor arrebatado e impossível dos tempos de guerra. Eis a carta:
''Elsenborn, Eifel, 2 de julho de 44.
Minha querida e amada mulherzinha!
Hoje eu estou de folga do serviço, e por isso quero te escrever uma cartinha longa e bonita e amorosa, meu coração. Como te escrevi ontem, cheguei bem aqui, mas meu coração demora sempre um pouco para a gente se acostumar. Tesouro, acabo de receber os documentos de volta e, te digo, nem imaginas a raiva que sinto. Novamente falta alguma coisa, dessa vez - presta bem atenção! - uma avaliação política e racial obrigatória da noiva e de sua família, bem como informações do chefe da Polícia de Segurança e do Serviço de Segurança (SD), respectivamente do chefe da Polícia de Segurança e o seu responsável. Olha, meu amor, nem te falo a raiva que tenho! Pois falei com o comandante e ele me prometeu que eu poderei viajar o mais rápido possível para Berlim para conseguir os documentos. Um dos atestados deverei buscar no consulado italiano, o outro na sede da SS. Espero poder viajar amanhã, no mais tardar depois de amanhã. Pois é, amor, depois de muitas idas e vindas pude, finalmente, dar uma olhada nos regulamentos e li tudo com atenção. Quando eu tiver os dois documentos em mãos finalmente terei tudo. Então, não haverá mais nenhum obstáculo no nosso caminho. As fotos estão certas, só será preciso colá-las num papel em branco e pôr o nome, aniversário e nacionalidade. Nossa, quanto coisa eles querem saber! Até mesmo a data da tua chegada na Alemanha. Querida, tem mais um pouco de paciência, por favor. Confia em mim, em breve você será a minha mulherzinha. Eu te amo tanto! Tão logo esteja contigo, vamos ao consulado e à SS, e então tudo estará em ordem, e eu poderei te segurar em meus braços como a minha querida, pequena e amada noiva. Os documentos foram mandados de volta pelo Btl (batalhão?) numa pasta. Meu coraçãozinho, eu te amo tanto.
D.Mauro, portador de esperança
Fritz Utzeri
Continuação da página B1
“O que estás fazendo, onde estás trabalhando? Amor, penso tanto em ti. Espero que tenhas encontrado um bom abrigo. Bem, minha querida, medo não preciso ter mesmo. Pois já estás te tornando tão insolente quanto uma verdadeira berlinense (os berlinenses são famosos pelo atrevimento). Ainda hoje dou risadas quando me lembro disso. Hoje não recebi nenhuma carta tua, embora saiba que nem poderia ter chegado, espero impacientemente o correio de amanhã. Espero muito que haja uma cartinha do meu amorzinho. Bem, minha pequena insolente, como estás? Bem, espero. Meu amor, vocês tiveram alarme em Berlim novamente? Espero que não. Foram dias tão lindos. Espero que a guerra acabe logo, para que a vida possa ser vivida novamente de seu lado mais agradável. Hoje, excepcionalmente, fez um dia agradável, nem quente nem frio, e o sol aparecia de vez em quando. Bem, coração, terminarei por hoje. Tem confiança em mim e acredita, meu amor, te amo tanto. Mande lembranças cordiais para a família (?) e com mil beijinhos doces e lembrancinhas. Sou o teu eternamente apaixonado Papi Fritz.”
O ‘companheiro’ Delfim
Alguns amigos reclamam e dizem que ando muito amargo e devo dar um tempo ao Lula, que ele está tentando construir uma base política para viabilizar seu projeto. Ok, vou tentar, mas não dá pra ficar calado ante um governo que nos primeiros 10 dias deu inúmeros sinais de estar à direita de FH. Mas, apesar disso, sentei-me ao computador cheio de boa vontade. Esta passou na hora em que li, no jornal de sexta-feira, a notícia de que D. Mauro Morelli foi vetado pelo governo para integrar a Comissão de Segurança Alimentar. D. Mauro não precisa de qualificativo. É desses portadores de luz, esperança e justiça que, esperava eu, já deveriam estar brilhando no horizonte da pátria neste instante.
E o que dizer quando tomo conhecimento de que a treva mais trevosa, o ex-czar da economia, Antonio Delfim Netto, foi chamado por Lula para integrar o Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social do mesmo governo que rejeita D. Mauro? Delfim é signatário do AI-5, inimigo da democracia. Na reunião que estabeleceu o AI-5, achou pouco, queria mais poderes. Ele é o responsável maior por esse encabrestamento do Brasil aos bancos e ao FMI, pelo descalabro econômico em que vivemos. É o homem que proclamava: “dívida a gente rola com a barriga” e “é preciso primeiro crescer o bolo para depois distribuir”. Delfim serviu lealmente aos governos ditatoriais, não questionou nem mesmo a tortura que corria solta nos porões. Eis o perfil do novo “companheiro” do PT.
O e-mail fritz@jb.com.br vive me pregando peças. Há 15 dias está totalmente mudo, não me repassando uma única mensagem, nem os spams (mensagens não desejadas, em geral publicidade) habituais. Queixo-me ao suporte técnico e o problema continua. Como é a terceira vez que ocorre nos últimos meses, peço aos leitores que esqueçam de vez esse e-mail e enviem suas apreciações, críticas e sugestões diretamente para: flor.do.lavradio@uol.com.br, que eu as repassarei ao JB. Um abraço a todos.
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