Luiz Inácio Lula da Silva ainda está devendo ao povo brasileiro um discurso, firme e detalhado, mostrando claramente a herança que recebeu de FH. Não se trata de caçar bruxas, mas de mostrar, sem retoques, a situação real do Brasil. Como eleitores e cidadãos temos o direito inalienável de saber o tamanho do abacaxi (ou pepino se preferirem), ainda mais porque nos acenam com, no mínimo, mais um ano de sacrifícios e arrocho.
Essa conta, para variar, será cobrada da classe média. Os muito pobres, que nada mais tem a perder, talvez até recebam um reforço considerável de assistencialismo (o que é humano e necessário), mas os assalariados, os que pagam imposto de renda e sobrevivem vão, mais uma vez, sofrer na carne (pouca) as conseqüências das seqüelas herdadas pelo governo Lula.
Votamos por um governo transparente e em comunicação com o povo, o que não tem nada a ver com o agarra-agarra irresponsável das festas dos últimos dias. A transparência foi um dos (poucos) compromissos assumidos durante a campanha e reafirmados no emocionado e emocionante discurso que Lula fez na Avenida Paulista em meio às comemorações por sua eleição.
Lula precisa falar. Será muito ruim se não houver uma prestação de contas, um balanço detalhado do recebido. Ficará no ar a impressão de que o grande movimento popular que detonou a Era FH não passou de uma impressão, um engano. Nosso príncipe dos sociólogos já está vivendo na glória em Paris e nós estaremos às voltas com o pior dos quadros: inflação de 25,31%, arrocho, desemprego, submissão ao FMI e a perspectiva de um 2003 que, provavelmente, será melhor esquecer.
Hay gobierno?
Fui criticado por um leitor por manifestar minhas reservas quanto às primeiras mensagens que o governo Lula nos transmitiu. Estou inteiramente à vontade para fazê-lo. Votei (e declarei voto) em Lula. Durante a campanha cobrei metas objetivas do PT (que não apareceram) e, sobretudo, um projeto para erradicar a miséria do Brasil no espaço de uma geração. O que este tupiniquim não engole de jeito nenhum é a tal manutenção dos contratos. Desde o regime militar, e mais notadamente nos últimos anos, fomos convencidos na prática de que o modelo econômico atual do Brasil, baseado no endividamento e má distribuição de renda, é sem saída, inviável e tem levado o país (e principalmente os brasileiros) para o buraco.
O que este índio não entende, de jeito nenhum, caro leitor, é a seguinte situação: você se chama Brasil e 60% de tudo o que ganha ao longo do ano é repassado a seu cartão de crédito apenas para amortizar os juros de suas dívidas, sem abater um tostão do principal. E você ainda tem que usar os 40% restantes para comer, pagar salários, cuidar da saúde, educar os filhos, comprar roupa, gasolina e não pode mais adiar aquela obra em sua casa, pois em muitos lugares há infiltrações que ameaçam a estrutura... Você não iria conversar com o banqueiro para tentar renegociar o perfil dessa dívida? Desses juros? Não buscaria algum espaço para respirar um pouquinho? Sem conversa, ''respeitando os contratos'' você irá se encalacrando cada vez mais e a única saída será pedir mais empréstimos, aumentando o problema. Isso quem diz é Celso Furtado.
Programas como o combate à fome tem que ter prazo para acabar. Eles só se justificam pelo fato do organismo humano não poder esperar pela melhora do quadro social, da educação e do emprego para sobreviver. O ser humano precisa comer agora e já. Mas a ênfase deve ser dada a políticas que promovam educação, desenvolvimento, emprego e justa distribuição da renda. Num Brasil verdadeiramente justo e democrático, campanhas contra a fome serão tão úteis como seriam na Suécia de hoje em dia. É bom lembrar que há menos de 100 anos morria-se de fome na Escandinávia.
José Dirceu, ao assumir a Casa Civil, disse não ter medo de falar em ''revolução social'' e cobrou dos empresários a ''contrapartida'' ao pacto social proposto por Lula. Para Dirceu, o pacto deve ter duas direções: ''a defesa da produção empresarial brasileira e o aumento da participação do trabalho na renda nacional''. Palmas para o discurso do Dirceu, mas vamos ver como se comporta o empresariado. Aí é que mora a minha dúvida.
E, a propósito, o que faz Fidel Castro numa festa que celebra a democracia?
Cadê os negros?
As chamadas da minissérie A casa das sete mulheres estão um primor salvo por um pequeno grande detalhe. Onde estão os negros? Na época da revolução Farroupilha, um movimento separatista e republicano, muitos negros fugiram para juntar-se às tropas de Bento Gonçalves. Cerca de um terço do exército dos farrapos era constituído de escravos fugidos aos quais o revolucionário gaúcho prometera liberdade assim que o conflito terminasse. Bento tinha um oficial, seu braço direto, que era negro. Vendo as diversas chamadas de A casa das sete mulheres, não aparece um só afro descendente, nem como figurante. É isso mesmo? Se for, mais uma vez ''branquearam'' a história neste país sem racismo.
ETs de todo o mundo, uni-vos
Esses raelianos que agora anunciam a clonagem de um bebê acreditam que o homem originou-se na Terra a partir de uma nave espacial que deixou aqui os primeiros espécimes. Teoria bastante parecida com a de outra seita dos anos 60 e 70, esta brasileira e política, a Libelu (Liberdade e Luta), que tinha uma vertente chamada pousadista que acreditava piamente que o socialismo chegaria à Terra via disco voador. Os ETs seriam todos socialistas.
Love story
Quando ela chegou à rua da Tijuca foi uma sensação. Loura, mignon com um jeito de Brigitte Bardot, ela passava e deixava um discreto perfume e um rastro de sedução. Como chegar àquela deusa? Eu era magro, macérrimo, pesava meros 57 quilos, era um saco de ossos com óculos de grau, positivamente o oposto do sedutor (Woody Allen ainda não aparecera).
Mas tinha conversa, papo viajara e ela tinha um irmão caçula. Comecei seduzindo o mano com aventuras (e mentiras) fantásticas nos Andes. Terremotos, vulcões em erupção, essas coisas. Depois, devidamente apresentado, demorei apenas um dia para lhe pedir em namoro. Naquele tempo se fazia isso. Levou 24 angustiadas horas para responder sim e estamos juntos desde então Liège, minha mulher, e eu. Faz 40 anos este mês, 40 anos de amor. E tudo começou no dia de meu aniversário, o maior presente que já recebi na vida.