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O eterno fio da vida

Vários leitores, incluindo cientistas, escreveram dando opiniões sobre a ''caixa preta''. Alguns questionaram a minha afirmação de que na regressão quase sempre somos nobres, reis, barões ou guerreiros e a explicação que dei ao fato. Fato incorreto, segundo pelo menos cinco leitores que garantem ter feito regressão. Um deles chegou a contar uma experiência incrível que transcrevo. Não dou o nome a pedido dele, mas lá vai: ''Confesso a você que em minha experiência pessoal, não fui nenhum nobre e nem reivindicaria a coroa, seguindo quaisquer linhas de teses jurídicas para obter o meu quinhão. Muito pelo contrário, posso te adiantar, que o nível a que cheguei foi a uma cadeira elétrica onde senti todas as sensações da morte por esse absurdo ainda praticado no mundo dito moderno. Foi uma sensação incrível e que muito me deixou de lição. A técnica aplicada foi em 1992. Não fiz propaganda, porque fui orientado a não fazê-lo e trabalhar as imagens recebidas em meu consciente para lidar com a minha realidade pessoal''.

O leitor Roberto Oliveira diz: ''Sua teoria da 'caixa preta' está muito próxima daquela formulada pelo biólogo escocês Rupert Sheldrake, considerado o papa da Biologia moderna. A diferença é que, resumindo, ele afirma não se encontrar capacidade na estrutura física do gene que possibilite a transmissão. Como, no entanto, ela pode ser constatada em gerações não seqüenciais, surgindo como um hábito ou uma memória em gerações que não se sucedem uma após a outra, isto implica a admissão de uma força de natureza não física, não material''.

Do Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas, a pesquisadora Myriam Giambiagi escreve: ''Queria lhe contar minhas reflexões, como cientista, sobre o que você escreveu domingo. Discuti muito com uma prima bióloga, em Buenos Aires, sobre esses temas. Eu mostrava para ela meus dedos tortos. Tenho as mãos de meu pai. Meu avô italiano, quando me conheceu, olhava para elas com 12 anos, na mesa, e dizia: 'le mani di Marco, le mani di Marco...' Eu dizia à minha prima que, se a natureza dedica genes para coisas tão idiotas, claro que existem genes psicológicos, como a gente verifica nos filhos. Já me aconteceu ter a impressão de que um filho tivesse o temperamento de meu pai e uma das filhas exatamente tudo o que me incomodava em minha mãe. Há alguns anos cheguei à conclusão que ESSA era a imortalidade. Eu esperava ter a sensação de imortalidade quando nascessem os meus filhos, mas me decepcionei. Já nos netos começo a senti-la. Voltando à conversa com minha prima, ela me disse 'então, por que é que a gente não se lembra?' Há pouco tempo tive essa sensação de déjà-vu de que você fala. Vi uma foto do palácio real de Caserta, perto de Nápoles, e descobri um sonho recorrente que tive durante muitos anos. Primeiro pensei que, como sei que nunca estive lá, alguma vez meus pais italianos podem ter tido nas mãos uma foto do castelo. Depois, gostei mais da idéia de que algum de meus antepassados trabalhou nesse palácio, certamente como servo. Os geneticistas amigos me dizem que ninguém sabe o papel da maior parte do DNA, isto não quer dizer que seja lixo''.

Bem, em primeiro lugar, se nas regressões vivemos vidas comuns e podemos até ser ''eletrocutados'', mais uma razão para reforçar a teoria da ''caixa preta''. O que me parece extraordinário nessa hipótese é que todos os seres vivos, sem exceção, teriam esse mesmo registro de vidas sucessivas em seu DNA. Assim, teoricamente, se pudéssemos decifrar a linguagem desse código e retroagir no tempo, iríamos reconstituindo a nossa evolução desde o primeiro coacervato no mar primordial ou até (quem sabe?) quando ainda éramos poeira estelar e poderíamos acompanhar a história de nossa evolução, quando nos distinguimos dos primeiros proto-humanos, quando nos tornamos mamíferos, quando deixamos de ser peixes, quando saímos da condição de amebas, etc.

Como esse código está em todos os seres vivos, a História é complexa e tem razão a leitora Myriam quando deduz que aí pode estar a raiz do conceito de imortalidade, tudo registrado num ''livro'' fascinante, uma vida só, constituída por todas as vidas, plena, continuada e que poderia até ter um nome: Deus. (Olhem que continuo cético, incrédulo, mas não nego que a possibilidade é muito atraente). Mas, como a vida seria gravada na ''caixa preta''? Será que aí não estaria uma explicação para o fenômeno dos sonhos? Não seriam nesses momentos oníricos, desligados do consciente e geralmente incompreensíveis à razão comum, que estaríamos gravando e perpetuando a maravilhosa história da vida?

Com muito menos do que isso já se fundaram religiões, mas a minha intenção é apenas provocar o pensamento, a reflexão, sobre o muito que não sabemos (ainda) sobre o mundo e nós mesmos e sobre as maravilhosas possibilidades que poderão se abrir para o homem no futuro. Pena que não vou ver e, provavelmente, nem você caro leitor. Mas não estaremos mortos. A nossa história estará lá, gravada para sempre, indelével, no eterno fio da meada da vida.

P.S. Domingo que vem voltamos à política?

[11/AGO/2002]

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