No momento em que escrevo esta coluna, ainda não sei se o jornalista Tim Lopes da TV Globo está vivo ou morto, mas o episódio pede reflexão séria sobre as circunstâncias do exercício do jornalismo, em face de novas tecnologias que tornaram possíveis missões antes impensáveis, como o uso de microcâmeras, minigravadores e outros apetrechos mais adequados a 007 do que a repórteres.
Antes de entrar no mérito da questão quero destacar o grau de selvageria e de desgoverno a que estamos chegando no Rio e em várias outras áreas metropolitanas do Brasil, conseqüência de um quadro social que não cessa de agravar-se e que está levando o país a um estado de guerra civil não declarada, não institucionalizada, sem regras, sem barreiras, sem limites.
Há alguns anos, mesmo para um bandido perigoso, era impensável matar um jornalista numa cidade como o Rio de Janeiro. Era época em que as coisas se definiam com mais precisão e as palavras tinham sentido. Conforme dizia o bandido Lúcio Flavio, uma lenda do crime, ''bandido é bandido, polícia é polícia''. Hoje em dia, esse limite caiu (caíram muitos outros). Naquele época, podia se dizer que ''jornalista é jornalista, polícia é polícia''.
Dito assim até parece que dá para justificar os eventuais assassinos ou (como espero), apenas captores do repórter desaparecido. O crime deles é inominável. Mas é bom pensar no caso. Entrei na profissão de jornalista por estar estudando medicina. Tinha conhecimentos médicos, o que me facilitava a vida em conferências e congressos, e o entendimento de coisas técnicas que escapavam aos demais coleguinhas. Mas nunca entrei num hospital disfarçado de médico, nunca me vali da condição de médico para forçar um acesso ou obter uma entrevista contra a vontade da fonte. Não considerava ético. Sempre me apresentei como jornalista.
Cobri guerras, como a insurreição sandinista na Nicarágua, e golpes de Estado, como a derrubada de Isabel Perón. Estive sob fogo. Sempre tive o cuidado (como todos os demais jornalistas que participaram dessas coberturas) de deixar muito clara a condição de observador. Nossos carros eram cheios de grandes adesivos onde estava escrito Press ou Prensa. Durante mais de seis meses, juntamente com o meu parceiro Heraldo Dias, andamos atrás do destino do ex-deputado Rubens Paiva. (Os militares ainda estavam no poder e o porão atordoado, mas ativo.) Falamos com mais de 300 pessoas, de generais a torturadores, passando por policiais, ex-presos políticos e o que for possível imaginar.
Certa noite, após estabelecer contato com um policial ligado ao Esquadrão da Morte e que tinha participado da operação para dar sumiço no corpo do ex-deputado, ficamos, Heraldo e eu, em pé, de madrugada, durante mais de duas horas, na porta de uma padaria (fechada), na Estrada dos Bandeirantes, em Jacarepaguá, para uma operação de ''manjamento''. Naquele momento estávamos sendo identificados por toda a banda podre da polícia carioca. Nossa vida corria perigo, a ponto de fazermos todos os dias um relatório em três vias sobre o que apurávamos. Uma para o jornal, outra para nós e a terceira para o então representante da OAB, Nilo Batista.
Era jornalismo investigativo e fizemos de tudo, até violamos sepulturas no cemitério da Cacuia, na Ilha (com o conhecimento prévio da Santa Casa), mas sempre nos apresentamos como jornalistas. Nossa segurança ali era, além dos relatórios, do peso político do JB e dos limites que ainda existiam, o apoio de um terceiro membro informal de nossa equipe, o capitão Sérgio Macaco, do episódio do Parasar. Mas naquela época carro de reportagem ainda entrava em favela. Não existiam os feudos da droga, os comandos de bandidos e a autoridade pública era exercida, bem ou mal, em toda a cidade.
Com o advento dos gravadores começou o primeiro dilema. Gravar ou não gravar? Em princípio tínhamos restrições ao gravador, mas, quando o usávamos, sempre pedíamos licença para gravar e púnhamos o aparelho sobre a mesa. Confesso que já gravei à revelia da fonte, mas não se tratava de um flagrante, a fonte sabia que estava falando com jornalista. Mesmo assim, não gostei de tê-lo feito.
Trabalhei em TV e sei do efeito inibidor da câmera sobre muita gente. Liga-se a luz, roda-se o VT e um bloqueio se estabelece. É claro que seria muito melhor operar com uma pequena câmera escondida, sem que o entrevistado desconfie sequer de que está sendo entrevistado, quanto mais filmado. Mas será isso jornalístico? Será ético? Onde está o nosso limite? A questão é tão controvertida que até a Justiça hesita em aceitar certo tipo de prova, como grampos ilegais, por exemplo. Quanto tempo será preciso ainda para que os meios de comunicação comecem a grampear suas fontes?
Se um policial resolver infiltrar-se numa quadrilha de traficantes portando microcâmeras e gravadores, a ação de investigação desse profissional será legítima. Primeiro porque, ao tornar-se policial, o indivíduo assume uma série de riscos inerentes à sua escolha. E a sociedade lhe outorga uma missão que vai bem além do jornalismo. Nós podemos contar, denunciar, mas não prendemos nem soltamos ninguém. Nem julgar nos é permitido.
Entre os riscos assumidos conscientemente pelo policial, morrer é um deles, matar é outro. Para isso ele é preparado e geralmente conta com apoio armado ou com armas que ele próprio foi treinado a usar. O jornalista, se entrar nessa, entra com a cara e a coragem e só. A não ser que vejamos em futuro próximo repórteres armados e com aparatos de espião, atuando na clandestinidade e protegidos por atiradores de elite estrategicamente colocados.
O uso desses meios tecnológicos modernos e miniaturizados facilita denúncias, sem qualquer dúvida, mas pode ser também um modo questionável de exercer a profissão. Além disso, usados indiscriminadamente, acabam sendo um convite à preguiça apurativa e ao sensacionalismo voyeurista, além de desestimular o uso da inteligência, pois ao repórter exige-se que seja um bom ator (algo não previsto nos pré-qualificativos requeridos para o exercício da profissão), capaz de portar a câmera que denuncia. Mero instrumento.
Esse tipo de ação só se justifica quando a iniciativa parte do profissional, de preferência free-lancer. Infiltrar-se, por sua conta e risco, num grupo terrorista, por exemplo. Mas uma empresa, mesmo de comunicação e a serviço de uma boa causa, não tem o direito de arriscar a vida de seus repórteres a esse nível. A profissão de jornalista, exercida abertamente, já é das mais perigosas do mundo.
Morrem anualmente dezenas de coleguinhas em guerras, revoluções e acidentes. Faz parte do risco da profissão, mas daí a transformar cada um de nós numa cópia de 007 vai uma distância enorme. Nós somos testemunhas, não temos licença para matar e nossa atividade só pode ser exercida dentro da ética e da legalidade. Essa noção de que jornalista é jornalista é a única proteção que temos ao entrar em zonas de conflito para sairmos vivos e contar a nossa história. Se nos confundirmos com espiões ou policiais com eles seremos confundidos, e nesse caso é melhor mudar logo de profissão. O debate está aberto.