''A paisagem? Uma queixa da matéria acerca dos limites dentro dos quais é aprisionada pelo espírito.'' É a frase de Lyotard que a potente poética de Nelson Felix evoca sob forte impacto. Sob os signos da cruz, do vazio, do tempo,
Trilogias tem curadoria do artista e da crítica Glória Ferreira.
Símbolo universal de orientação, a cruz supõe um tríplice acordo: do homem com sua existência corpórea e finita, com os espaços e as distâncias dos mundos, com os tempos cósmicos e o ordinário das horas. Guiado pela estrela que o aquece, ou desviado pelos ritmos do coração, o homem se orienta e se perde na rotação de um cosmo por onde se desloca. Entre céu e terra, imanência e transcendência, a cruz é signo de reconciliação e medida.
É esse triplo acordo que Nelson Felix interroga como possibilidade do estar no mundo, ou aquém dele: toma da cruz sua potência de entrelaçamento, não de orientação. Pois não habitamos o vazio onde se situariam coisas e seres a partir de um centro, origem e destino de todas as cogitações. Vivemos em meio ao infinito das relações e dos cruzamentos de convenções e simbologias, de organismos e artifícios, sem todavia reconciliá-los. São antes enxertos e hibridações como na série Gênesis, no Grande Budha e na Mesa. São antes extravasamento e tensão dos limites, como no Vazio do cérebro: esculturas do parietal e do calcanhar em mármore carrara ampliados 111 vezes, como a trindade, de seu tamanho natural.
Corpo, peso, volume, matéria: o artista estabelece um diálogo fecundo com a tradição escultórica, sem lhe dar a saída formalista da obra fechada. ''Na interseção e interdependência de todos os fenômenos'', como afirma Glória Ferreira, as Trilogias ''absorvem como elemento constitutivo a história e a simbologia dos próprios materiais, quer seja mognos, figueiras (...), o mármore e sua tradição na escultura''.
A localização do Grande Budha, da Mesa e dos dois trabalhos do Vazio coração provém de coordenadas abstratas de latitude e longitude. Formam a Cruz na América e relacionam quatro paisagens: a floresta amazônica, o pampa gaúcho, o litoral cearense, o deserto do Atacama. Se, em meio à floresta, garras de metal são fixadas em torno de uma muda de mogno; próximo à fronteira no pampa, uma mesa de 51m de aço é flanqueada por 11 mudas de figueiras de cada lado. Levará centenas de anos para que o mogno absorva o metal do Grande Budha, e as figueiras, o aço da Mesa. Se o deserto é aprisionado em imagens fotográficas, uma esfera de mármore é abandonada às vagas oceânicas: o ritmo da pulsação cardíaca determinando a velocidade da máquina fotográfica, o volume dos pinos fincados na esfera equivalendo ao de um coração. A eternidade ansiada pela arte clássica é cotejada ao instante da vida e da máquina, o tempo da percepção ao tempo do afeto. Captura e doação, desvelamento e ocultamento.
Apenas as coordenadas que formam a cruz são fixas e pré-determinadas. Tempo, espaço e existência orbitam em infinitas associações, tramam escalas diversas, temporalidades variadas, simbologias de culturas distantes. O instante enlaça-se ao tempo cósmico além de nossa irrisória e breve existência. Nossa frágil e hesitante posição no universo confronta-se a um espaço descentrado, móvel e sem limites; o a priori das classificações ao acaso e ao inesperado dos destinos. E decerto algumas obras estão prometidas à invisibilidade, ao desaparecimento, a um registro fotográfico na origem do processo ou a uma narração que presume seu desenrolar.
Aos três signos propostos pelo artista, deveríamos acrescentar mais um: o signo da indisponibilidade que esquiva a obra do olhar e de um acesso direto, instalando um vazio que desorienta e interrompe a percepção costumeira das coisas, ''a ciranda do pensamento'', o ciclo viciado da vida. Um impacto próximo ao que sentimos diante do Vazio coração, do cérebro, do sexo. Formados a partir das três grandes cavidades do corpo humano como campos de energia, aludem à trilogia da vida humana e à inevitável indagação: o que sentir, o que pensar, como agir?
Segundo Glória, Trilogias ''convida a sentir o mundo em sua dimensão espiritual. Espaço cósmico sem centro ou horizonte.'' Enquanto escutamos ao longe a queixa da matéria aprisionada pelo espírito...