E-mails e telefones
Shopping JB Online
Home
Tempo Real

Colunistas
Informe JB
Reformar é extinguir alguns ministérios

Cartas
Reforma ministerial

Horóscopo

Gente
Nova gaúcha na praça

Charge Online

Marcia Peltier
'Made in Brazil'

Informe Econômico
Apostas divididas no 1º dia do Copom

Boechat
Vale tudo

Gilberto Amaral
A duquesa de Cornwall

Hildegard Angel
Jantar para 18 em mesa única

Ui!
Alô alô, prefeito

Anna Ramalho
Capistrano: um brasileiro com vergonha na cara

Informe Esportivo
Edmundo esquecido

Exposição Coletiva
A trilogia da vida humana Marisa Flórido

 


A trilogia da vida humana Marisa Flórido


''A paisagem? Uma queixa da matéria acerca dos limites dentro dos quais é aprisionada pelo espírito.'' É a frase de Lyotard que a potente poética de Nelson Felix evoca sob forte impacto. Sob os signos da cruz, do vazio, do tempo, Trilogias tem curadoria do artista e da crítica Glória Ferreira.

Símbolo universal de orientação, a cruz supõe um tríplice acordo: do homem com sua existência corpórea e finita, com os espaços e as distâncias dos mundos, com os tempos cósmicos e o ordinário das horas. Guiado pela estrela que o aquece, ou desviado pelos ritmos do coração, o homem se orienta e se perde na rotação de um cosmo por onde se desloca. Entre céu e terra, imanência e transcendência, a cruz é signo de reconciliação e medida.

É esse triplo acordo que Nelson Felix interroga como possibilidade do estar no mundo, ou aquém dele: toma da cruz sua potência de entrelaçamento, não de orientação. Pois não habitamos o vazio onde se situariam coisas e seres a partir de um centro, origem e destino de todas as cogitações. Vivemos em meio ao infinito das relações e dos cruzamentos de convenções e simbologias, de organismos e artifícios, sem todavia reconciliá-los. São antes enxertos e hibridações como na série Gênesis, no Grande Budha e na Mesa. São antes extravasamento e tensão dos limites, como no Vazio do cérebro: esculturas do parietal e do calcanhar em mármore carrara ampliados 111 vezes, como a trindade, de seu tamanho natural.

Corpo, peso, volume, matéria: o artista estabelece um diálogo fecundo com a tradição escultórica, sem lhe dar a saída formalista da obra fechada. ''Na interseção e interdependência de todos os fenômenos'', como afirma Glória Ferreira, as Trilogias ''absorvem como elemento constitutivo a história e a simbologia dos próprios materiais, quer seja mognos, figueiras (...), o mármore e sua tradição na escultura''.

A localização do Grande Budha, da Mesa e dos dois trabalhos do Vazio coração provém de coordenadas abstratas de latitude e longitude. Formam a Cruz na América e relacionam quatro paisagens: a floresta amazônica, o pampa gaúcho, o litoral cearense, o deserto do Atacama. Se, em meio à floresta, garras de metal são fixadas em torno de uma muda de mogno; próximo à fronteira no pampa, uma mesa de 51m de aço é flanqueada por 11 mudas de figueiras de cada lado. Levará centenas de anos para que o mogno absorva o metal do Grande Budha, e as figueiras, o aço da Mesa. Se o deserto é aprisionado em imagens fotográficas, uma esfera de mármore é abandonada às vagas oceânicas: o ritmo da pulsação cardíaca determinando a velocidade da máquina fotográfica, o volume dos pinos fincados na esfera equivalendo ao de um coração. A eternidade ansiada pela arte clássica é cotejada ao instante da vida e da máquina, o tempo da percepção ao tempo do afeto. Captura e doação, desvelamento e ocultamento.

Apenas as coordenadas que formam a cruz são fixas e pré-determinadas. Tempo, espaço e existência orbitam em infinitas associações, tramam escalas diversas, temporalidades variadas, simbologias de culturas distantes. O instante enlaça-se ao tempo cósmico além de nossa irrisória e breve existência. Nossa frágil e hesitante posição no universo confronta-se a um espaço descentrado, móvel e sem limites; o a priori das classificações ao acaso e ao inesperado dos destinos. E decerto algumas obras estão prometidas à invisibilidade, ao desaparecimento, a um registro fotográfico na origem do processo ou a uma narração que presume seu desenrolar.

Aos três signos propostos pelo artista, deveríamos acrescentar mais um: o signo da indisponibilidade que esquiva a obra do olhar e de um acesso direto, instalando um vazio que desorienta e interrompe a percepção costumeira das coisas, ''a ciranda do pensamento'', o ciclo viciado da vida. Um impacto próximo ao que sentimos diante do Vazio coração, do cérebro, do sexo. Formados a partir das três grandes cavidades do corpo humano como campos de energia, aludem à trilogia da vida humana e à inevitável indagação: o que sentir, o que pensar, como agir?

Segundo Glória, Trilogias ''convida a sentir o mundo em sua dimensão espiritual. Espaço cósmico sem centro ou horizonte.'' Enquanto escutamos ao longe a queixa da matéria aprisionada pelo espírito...


Aumentar letras Versão para imprimir Diminuir letras Enviar matéria

[15/MAR/2005]


   Home > Colunas > Exposição Coletiva


Tempo Real | Brasil | Economia | Esportes | Rio | Internacional | Colunas
Internet | Caderno B | JB Barra | Domingo | Programa | Musicalidade | Viagem
Acelera | Idéias | Horóscopo | Especiais | Opinião | Editorial | Charge | Cartas