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Você me dá licença?

Escrevo hoje para me despedir. Aceitei um cargo público e, de posse dele, eu incorreria em um grave conflito de interesses se continuasse a escrever semanalmente nesta coluna. Explico por quê. No dia 2 de janeiro assumi o posto de presidente da Radiobrás, uma empresa pública que tem cinco emissoras de rádio e duas de televisão, além de um respeitado serviço de informações governamentais na internet. Vinculada à Secretaria de Comunicação do Governo, a Radiobrás é subordinada ao Poder Executivo federal. Tornei-me um integrante do governo. Com isso, perco a independência formal necessária para exercer o tipo de crítica cultural que sempre procurei exercer. Como parte do governo, qualquer coisa que eu escrevesse estaria sob suspeição. A minha crítica deixaria de funcionar, porque deixaria de partir de um ponto de vista objetivamente independente. Perderia o pouco que conseguiu amealhar de credibilidade ao longo de quase dois anos aqui neste Caderno B.

Por isso, estou me licenciando deste espaço. Entro em recesso, por assim dizer. Não sei por quanto tempo - impossível saber - mas gosto de pensar que não estou me demitindo, estou apenas saindo de licença. O termo licença, aliás, me foi sugerido pela direção do JB, quando manifestei a necessidade de meu afastamento: ''Você então fica licenciado'', me disse o diretor de redação. Achei simpático. Achei comovente. Significa que tenho as portas abertas, ou melhor, as páginas abertas, caso, um dia, eu queira voltar. Que bom.

Eu sei, claro, que sempre há o leitor que comemora. ''Oba, o Eugênio Bucci vai embora. Já era tempo.'' Eu sei. Mais que isso: enxergo no júbilo desse leitor alguma razão. Mas gosto de pensar que existem aí uns poucos que apreciaram o que escrevi e que ficarão tristes com a minha partida. Vou para Brasília. Trarei, daqui a não sei quanto tempo, uma flor do cerrado para os que agora lamentam. Aos que festejam, a esses não sei o que dizer. Talvez devesse pedir desculpas. Por favor, me desculpem: tudo o que escrevi foi por querer. Foi por querer demais.

Voltando ao tema do conflito de interesses - que é o tema que interessa, exatamente pelo conflito que ele encerra -, há ainda outro aspecto que força a minha saída. A Radiobrás, além de produzir e veicular programas e textos informativos, é a responsável pela distribuição da propaganda legal do governo e de suas estatais. Balanços e editais são por ela distribuídos em jornais de todo o país por meio de anúncios pagos. Ora, também por isso, o presidente da empresa não pode ser colaborador fixo e remunerado de um determinado diário. Se isso ocorresse, a sua independência, agora não mais como jornalista ou crítico, mas como presidente de empresa pública, estaria prejudicada. Também aí, portanto, a ética jornalística e a ética do servidor público recomendam a interrupção da minha coluna.

De novo, insisto, sei que há os que soltam rojões com esta minha despedida. Eu, pessoalmente, fico triste. Melancolicamente triste. Pateticamente triste. Poucas atividades me deram mais prazer do que esta coluninha aqui. Nela eu me descobri escrevendo não para explicar, mas para que eu mesmo tentasse entender alguma coisa ou, talvez, para entender a mim mesmo. Tudo isso em público. Aqui eu me descobri escrevendo para me curar - e para adoecer os muito saudáveis. Aqui eu me descobri um São Francisco de Assis do avesso: destinado a levar dúvidas onde havia certezas, a levar o dissenso onde havia unanimidade. Sim, eu fui muito feliz nestas páginas e vocês, os que me apreciam e os que me depreciam, nunca poderão saber quanto. Se alguém me perguntasse ''Foi bom pra você?'', eu acho que responderia ''Uau, nunca senti isso antes.'' E, pior de tudo, eu estaria dizendo a verdade.

Resta dizer que acredito, e muito, na missão que tenho pela frente. A Radiobrás é uma empresa que honra todo jornalista que nela trabalhe. É um patrimônio do povo brasileiro - um patrimônio com um enorme futuro. Os serviços informativos que ela presta podem ser - e já são, em muitos casos - decisivos para a construção da cidadania, da justiça social e da democracia em nosso país. Não pense que são expressões vazias. Não são. Cidadania, democracia e justiça social são palavras ainda à espera de um significado concreto, substancial aqui no Brasil. É preciso construir esses significados. E isso se faz também com informação pública de qualidade. Com informação que se dedique, acima de tudo, ao direito à informação de que todo cidadão é titular. Aceitei o convite porque acredito nisso. E é por isso que, agora, nesta coluna, eu peço licença. Vou até ali e já volto. Não sei quando, realmente não sei. Mas quero acreditar que volto. Assim como quero acreditar que cada leitor, a exemplo da direção do JB, vai me dar essa licença. Como se fosse uma bênção. Como se fosse pirraça. Como se fosse uma aposta. Valerá a pena. Eu tenho certeza.

[09/JAN/2003]

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