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Cidade de Deus (e do mercado)

Lá pela metade do filme, quando as rajadas de balas perdidas já perfuraram qualquer boa intenção do espectador, o narrador de Cidade de Deus diz que, se o tráfico de drogas não fosse crime, o bandido Zé Pequeno seria o homem de visão daquele ano. A gente ri. Depois de rir, a gente se toca: a anedota faz um sentido profundo. Aquilo é mais uma bala perdida. Zé Pequeno é um homem sem coração. Mata por amor, alguém dirá, mas por amor ao ofício de matar. É um killer - e a palavra killer, aqui, lança uma ponte entre Cidade de Deus e as cidades dos negociantes legalizados. Muitos dos grandes executivos que hoje correm o mundo conduzindo conglomerados maiores que nações inteiras, muitos deles se orgulham de ser chamados killers. Demitem dez mil funcionários de uma canetada só. São frios feito máquinas de calcular na hora de ''enxugar a folha''. São os killers. Como Zé Pequeno.

Ou nem tanto. Zé Pequeno é imbatível. Depacha os subordinados chatos com um disparo traiçoeiro, como quem acerta o pernilongo distraído com a palma da mão. Brinca de tiro-ao-alvo nos reféns amarrados na cozinha do motel, como um chefe de seção que se espreguiça na cadeira e atira o papel amassado ao cesto, quando dá o fim do expediente. Zé Pequeno fuzila o desafeto enquanto ri, e isso desde criança, isso desde antes de lhe crescerem os pêlos da cara.

Mas não é por saber matar que Zé Pequeno seria eleito o homem de visão. É porque, já adulto, aos 18 anos, sabe ampliar os seus negócios sobre as ruínas dos concorrentes. Tomando as bocas-de-fumo, uma a uma, e liquidando os competidores, um a um, assume praticamente o monopólio das drogas em Cidade de Deus. Dita o preço da mercadoria. Se o tráfico não fosse ilegal, é possível que Zé Pequeno viesse a ter problemas com o Cade. Monopolista, emprega os trabalhadores disponíveis sem que ninguém dispute mão-de-obra com ele. Impõe e regula as fases todas do plano de carreira do tráfico, o que é bem anotado pelo narrador: a criança começa bem cedo, como mensageira (office boy), e depois evolui, como avião, vapor, soldado... até chegar a gerente. Zé Pequeno seria enfim o homem de visão por ter sabido dizimar os rivais, absorvendo suas clientelas.

Incrível como, à medida que o filme avança, o que se desenha na tela é uma parábola fiel do mundo dos negócios, em toda a sua selvageria. Refiro-me, sim, ao mundo dos negócios legais. Cidade de Deus, mais que um retrato realista do crime numa favela brasileira, é um retrato expressionista do mercado global. Talvez aí esteja o segredo da universalidade do filme e do livro homônimo que lhe deu origem. Ao contarem com detalhismo e extrema proximidade a história dilacerada de uma aldeia (um subúrbio, uma favela), um lugar humano que só existe naquele lugar histórico exato, um lugar que é único e incomparável, o escritor Paulo Lins e o diretor Fernando Meireles apresentam uma síntese da sociedade inteira, forjam a mais escarrada metáfora do capitalismo contemporâneo. Na guerra dos traficantes - por áreas de influência, por poder, por freguesias, por namoradas, por um futuro - qualquer humano do planeta, submetido que está a um grau de competição sem precedentes para simplesmente sobreviver, vai se reconhecer. A Cidade de Deus, senhoras e senhores, é onde todos vivemos. E morremos. E matamos. E roubamos. E nos drogamos.

A guerra é o subtexto do nosso cotidiano dito civilizado. É o nosso alicerce invisível, mas concreto. A guerra generalizada não é uma particularidade excêntrica das disputas pelas bocas-de-fumo nos morros. Ela é, em graus muito mais refinados e destruidores, a referência das imagens didáticas que habitam as cabeças dos executivos, dos mais gananciosos aos mais subalternos. Veja um desses livros de business que hoje infestam as bookstores dos shopping centers. Eles falam em alvo, falam em logística, falam em tática, em guerra de guerrilha, em surpreender o inimigo; falam de equipes como quem fala de tropa, de pelotão, falam em moral de vitória, em disciplina, em cerrar fileiras, em matar ou morrer. São esses livros que endeusam os killers. Pelas metáforas de que eles se servem, a gente vê que o mundo dos negócios é a sublimação da guerra, mas uma sublimação que potencializa a idéia de guerra.

Nesse mundo sublimado, a guerra corre solta, sangrenta, pérfida. Apenas um pouquinho disfarçada. Zé Pequeno, cru e bruto, surge aí como o ideal inconfessável do executivo. Zé Pequeno é o killer puro, sem mediações da cultura nem polimentos de etiqueta. Sua biografia é uma lição de instinto capitalista (ou deveríamos dizer empreendedor?). Se bobear, alguém vai logo promover sessões de interpretação fílmica de Cidade de Deus num desses cursos de militarizar executivos. Serão sessões curiosas. Terão seu ''foco'', eles dizem assim, foco, na capacidade de liderança, na visão estratégica, isso sem falar em aliança com fornecedores e satisfação do cliente. Se bobear, Cidade de Deus vai ainda virar curso de gestão. Por que Zé Pequeno ergue um império e depois se arrisca a perder tudo? (Não quero entregar o fim do filme.) Uns dirão que o seu erro foi ter quase amado. Foi quase ter tido, por um segundo, um arremedo de coração. Foi ter matado, naquela noite, não mais por amor ao ofício de matar - mas por amor a um rosto de mulher.

Que filme magnífico. Que vida escrota.

[05/SET/2002]

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