O Rio de Janeiro é uma cidade em guerra - não declarada. Se não é guerra, que cidade é esta em que o tráfico legisla sobre a vida alheia, julga e pune os que não lhe agradam e administra espaços públicos nos morros, nas favelas e em toda parte? Os jornalistas que pretendem mostrar os desmandos do tráfico vivem uma situação de guerra. Se não é guerra, que cidade é esta em que um jornalista, no exercício de sua profissão, vê-se na contingência de realizar funções que originalmente caberiam à polícia? Sem nenhuma proteção?
Pensando bem, o Rio não vive uma guerra. Vive algo pior que a guerra. Mesmo na guerra, o jornalista trabalha supondo que uma democracia, mesmo que distante, estará atenta ao seu relato. No Rio, as coisas já não são bem assim. A democracia está ameaçada. Daí que o jornalismo também está. Lembremos que o crime é notícia exatamente porque se supõe existir um Estado Democrático que, ao saber do crime, tomará as providências para puni-lo. E o que acontece quando não há democracia forte o suficiente para punir o crime? O que acontece é uma inversão: o desvio deixa de ser o crime - este se converte em regra. Desviantes passam a ser, então, aqueles que ousam desafiar o governo do crime. Sobretudo os jornalistas. Nesse cenário obscuro, o exercício do jornalismo é que está se tornando um crime hediondo aos olhos dos que usurparam o poder na cidade. Todos os jornalistas, porque comprometidos por definição com a ordem democrática, estão ameaçados de morte. Se a democracia se apequena, se os direitos humanos deixam de comparecer ao cotidiano da maioria da população, ora, que sentido terá o jornalismo? O jornalismo acabará. O Rio de Janeiro será enfim uma cidade inteiramente sitiada. E totalmente emudecida.