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A berinjela da discórdia

Nada de ''g'' ou de ''j''. Não é essa a polêmica que me pegou no contrapé. Sei que há entre os etimologistas e os dicionaristas um debate acerca do ''g'' e do ''j'' mas ele pouco me diz respeito. Uns dizem que berinjela é palavra indígena e portanto leva ''j'', outros garantem que o termo vem do árabe e daí deve ser grafado com ''g''. Para mim, devo admitir, tanto faz. O gosto não muda. Já provei berinjelas e beringelas, já mastiguei de ambas. Nunca pude notar mudança de uma pra outra. Na forma, no tamanho, na cor, na consistência, na acidez, no sabor, nada. A questão aqui é muito mais grave. É farmacológica, medicinal, colesterólica e colérica.

Ao longo desse fatídico mês de abril, sem mais nem menos, a imprensa noticiou um fato espantoso como se fosse trivial. Como se fosse assim, coisa de somenos. Consta, foi isso o que vi no noticiário, e vi repetidas vezes, em diversos veículos informativos, dos mais respeitáveis aos mais sensacionalistas, vi, li e ouvi em sites, em jornais, em emissoras de TV, assim, noticiado como se fosse uma leguminosa frugalidade, eu li e reli que, preste atenção o leitor, que, note bem, que, ah, digo logo de uma vez, que, acho que vou digitar tudo em maiúscula para que fique bem claro, enfim, QUE BERINJELA NÃO REDUZ O COLESTEROL DA GENTE. Repito: NÃO REDUZ! Não é chocante? Ando tendo palpitações desde que soube da terrível descoberta. Consta que há uma sólida base científica para a assustadora conclusão. Os pesquisadores são do Incor, do Instituto do Coração do Hospital das Clínicas de São Paulo. Gente séria. Taquicardias paroxísticas me acudam.

Eu tomo berinjela batida na laranjada todas as manhãs. Sorvo a beberagem orgulhosamente. E mais. Depois de findo o copázio, trituro com os dentes da frente as casquinhas negras e carnosas que ainda remanescem na boca. Dedico-me a mordiscadelas minuciosas enquanto me distraio com as sandices que se publicam ultimamente nos jornais (minhas colunas inclusive, mas nenhuma delas eu releio, aliás, não as releio nunca para não ter uma síncope de arrependimento). Mastigo com a precisão de um relojoeiro os viscosos grânulos berinjelais enquanto me dou conta de que realmente não se pode levar a sério o que a imprensa publica. Sobretudo essa história de que berinjela não reduz o colesterol. Ora, tenha a paciência. O que esses cardiologistas pensam que sabem? E os jornalistas, que acreditam neles piamente, não têm brio profissional? Por acaso cobriram criticamente o assunto? Ouviram o outro lado? Entrevistaram o meu tio de Ribeirão Preto que foi quem me deu a receita mágica? Sei não. Por acaso os repórteres acompanharam passo a passo as etapas da pesquisa? Verificaram a validade das premissas? A pertinência do grupo de controle? As outras variáveis? Eu bem sei como essas coisas funcionam. O pessoal deve ter publicado um press release do Incor e pronto. Berinjela é mesmo com ''j''? Acho que nem isso os repórteres perguntaram. Quando muito, devem ter apurado por telefone. ''Alô, doutor Fulano? Olha, não está dando para entender direito aqui, a taxa normal de colesterol no sangue é de 200 o que mesmo?''. O jornalismo acabou mesmo. ''Ah, não é bem 200?''

O pior de tudo é a covardia do público. Ninguém se levantou em defesa da berinjela. Todos se acovardaram, fingiram que não era com eles. De repente, por obra de uma manchetezinha de nada, ali embaixo, numa triste página par da editoria de Geral, os ex-adeptos da berinjela se viram na condição de crédulas vítimas do curandeirismo barato, do charlatanismo a serviço dos hortifrutigranjeiros. Que vergonha. Sumiram. Desautorizados pela Ciência, negaram a Cristo, digo, negaram à berinjela por três vezes. ''Eu? Imagine. Nunca acreditei nessas coisas.'' Pulhas. Vão passar a beber suco de laranja batido com lovastina. Essa, sim, parece que é tiro e queda (do colesterol, não do enfermo).

Eu não nego a minha fé. Eu bebo berinjela sim. Estou vivendo. E ainda por cima gosto. Sem açúcar, é lógico. Só de lembrar me dá água na boca. Não nego a minha fé e duvido dos jornais. E se esse for um outro episódio como aquele lá do sujeito da Venezuela, como ele se chamava mesmo?, o Hugo, aquele que caiu, que era um falastrão, que era um pateta populista e, depois, no dia seguinte, estava de volta à presidência, e aí o outro é que era um tubérculo incompetente? E se for tudo como agora aconteceu com o Le Pen na França? Ele não era carta fora do baralho? Então, aí está: foi para o segundo turno ou não foi? As pesquisas lá não erraram? Os estrategistas políticos (todos muito científicos) não erraram? E se estivermos diante da Escola Base da berinjela, se os repórteres estiverem cobrindo o assunto com a mesma subserviência com que em 1994 acompanharam aquele inquérito mal conduzido, dando por verdade o que não passava de suspeita? E se a berinjela for a vítima? E se depois os bilionários laboratórios mundiais aparecem aqui com uma pílula caríssima que contém o princípio ativo de quem, de quem? Ora, da berinjela. E aí?

Claro que já estou agendando um exame de sangue. Terei de ficar em jejum e, no dia marcado, não engolfarei minha beberagem matutina. No mais, é vida pra frente, ''vida normal'', no idioma cardiologiquês. Até porque essa confusão toda não tem nada a ver com a natureza da berinjela, muito menos com o colesterol. Você pode não ter entendido, mas isso tudo se refere à natureza anêmica e às artérias obliteradas da imprensa. Fora isso, meu sistema cardiovascular é paranóico. Um brinde não-alcoólico à berinjela. Saúde!

[25/ABR/2002]

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