Há uma semana, um incêndio consumiu o pavilhão 24 do Ceasa de Irajá, na Zona Suburbana do Rio. O prejuízo dos 19 atacadistas que eram donos dos 40 boxes atingidos foi de R$ 15 milhões. Mercadorias, paredes e uma agência bancária viraram cinzas. Alguma coisa, porém, sobrou. Alguma comida. Só mesmo a fome para se dar conta de que num incêndio desses sobra um almoço. Ou mais de um. No domingo e na segunda-feira, a televisão mostrou levas humanas que remexiam os escombros em busca de latas de sardinha, de caixotes do que quer que fosse, de alguma substância mastigável, quem sabe. A polícia reprimiu. A multidão reagiu. O que era uma arqueologia da fome foi virando tentativa de saque. Tiros para o alto. Pedradas. Gente carregando mantimentos chamuscados. Outros tiros.
Na televisão as coisas passam sempre rápido demais. São flashes, como dizem, são instantâneos muito ágeis conduzidos pela fala precária de um narrador. Sem nexo nem contexto. Ninguém entende os acontecimentos olhando o mundo pela televisão. Só o que se tem na TV são fragmentos visuais da paisagem, fragmentos que se misturam uns aos outros como pedaços de gelo batidos no liquidificador. Ver o mundo pela TV é mais ou menos como ver um vale ao ser nele atirado de body jumping. A televisão não é uma janela para o mundo: é uma esteira de tanque de guerra atropelando os nossos olhos. Ela não narra coisa nenhuma: faz das nossas retinas o que as impressoras fazem com o papel bege sobre o qual escrevem o jornal do dia. A televisão é massacre em videoclipe e, no entanto, foi na televisão e só na televisão que eu vi as pessoas sem camisa, no Ceasa, correndo atrás dos restos de uma incineração. Foi na televisão e, mesmo assim, desconfio que vi uma dessas figuras que sintetizam o Brasil.
Buscar o sustento dos filhos nas ruínas do Ceasa não é muito diferente de buscar o café da manhã no lixão. Não é muito diferente jantar as cinzas do Ceasa de vestir na festa de casamento da prima uma blusa achada num acostamento de estrada. Não é diferente de tomar banho em água ''usada'', de ler revista que foi jogada fora, de apaixonar-se pelo rosto de mulher que sorri no outdoor enquanto se luta para pegar no sono embaixo de uma marquise; não é diferente de sentir-se brasileiro olhando a seleção jogar (mal) através da vitrine de uma loja, sem um troco para a condução, sem ter um emprego para marcar o ponto. Não ter emprego é não ter utilidade, serventia, validade, razão. E o pior, o pior de tudo, é que a cena do Ceasa faz um sentido profundo. Ela não é uma excepcionalidade, mas um retrato em alta definição das relações sempre violentas que se travam entre a cultura do desperdício, de um lado, e a carência de tudo, do outro.
Eu sei que existe um olhar no Brasil para o qual os humilhados são apenas os outros, apenas aqueles ali que cavoucam as ruínas para poder comer. Há quem veja as coisas de um modo tal que não se sente igualado aos que nada têm e que, por isso, enxerga-os como seres a mais, seres que sobraram, que até poderiam ser jogados fora. A cultura do desperdício desperdiça cadernos escolares, papel higiênico, pacotes de macarrão, gasolina, ar, água limpa, mas desperdiça acima de tudo gente. A idéia é perversa mas é disseminada: muitos abastados acreditam que existe gente sobrando no Brasil, assim como existe comida estragada e enfumaçada sobrando no Ceasa, acreditam que essa gente que é lixo pode viver de lixo, ou pode morrer do lixo, das doenças do lixo, ou pode padecer jogando pedra na polícia para comer o lixo, tanto faz.
A cultura do desperdício é ainda mais selvagem. Ela não existe por acidente ou por descuido, mas por uma necessidade imperativa. O desperdício é o mecanismo pelo qual o consumista se sente mais pleno de si, superior a todos os demais. Desperdício não é só jogar coisas boas fora como se fossem coisas imprestáveis. Pagar milhares de reais por uma bolsinha de zíper é uma forma simbólica de desperdício: é uma forma de impor a privação ao outro que nem sequer pode sonhar com aquela bolsinha estúpida. O consumista extrai o seu gozo à medida que exclui o semelhante de seu objeto de consumo. A mercadoria exclusiva, assim, nada mais é que a face chique da exclusão. O consumismo é obrigatoriamente a religião que exclui. Sobretudo no Brasil, um país em que o consumismo foi além do razoável: em poucos países o fosso entre os mais ricos e os milhões e milhões de mais pobres tornou-se um abismo tão intransponível.
Por fim, a cultura do desperdício consome, pela porta de serviço, aqueles seres que ela mesma considera as sobras biológicas da espécie. Consome-os para promover a manutenção da escravidão doméstica entre nós, consome-os fantasiando-os de mucamas, de guardadores de carros, de traficantes solícitos sempre ao alcance de um telefonema. O desperdício e seus cultores satisfeitos mastigam a presteza dos excluídos assim como os excluídos mastigam as sardinhas achadas nos subterrâneos do Ceasa. Os ricos vivem e se fartam do lixo em que transformaram a vida dos pobres; os pobres vivem do lixo existencial a que se rebaixou a vida dos ricos. Um depende do outro para seguir existindo, nessa simbiose macabra.
Eu revejo na memória as cenas do Ceasa e empalideço. Por baixo dos escombros disso que um dia foi a nossa sociedade, apodrece o nosso pão de cada dia. Sobreviverá quem tiver estômago para exumá-lo.