As pesquisas de opinião parecem confirmar que a operação levada a cabo por Lula tem tido sucesso. Sua imagem política permanece acima da crise, enquanto esta é exportada para o Congresso e para o PT. A saída de José Dirceu exportou a crise para o Congresso, com os holofotes da imprensa situados nas CPIs e dando espaço de manobra para o governo avançar na reforma ministerial.
Por outro lado, as declarações atribuídas a Lula, de que teria sido enganado por atividades que ele desconheceria, ajudam a empurrar a crise para a direção do PT - agora mudada, mas com a nova direção recebendo como herança, entre outras, o esclarecimento das denúncias e um capital de desalento com o partido.
As pesquisas, ao mesmo tempo, alentam ainda mais Lula a candidatar-se à reeleição, enquanto esvaziam as manobras oposicionistas - comandadas por FHC - de propor uma trégua na campanha de denúncias - revelando onde está seu quartel general -, em troca da renúncia à candidatura à reeleição de Lula, revelando que o que ainda mais temem é o voto popular do atual presidente.
No entanto, pelo menos uma conseqüência gravíssima ficará da crise presente: uma contribuição importante à desmoralização da política e dos partidos. Se até o PT se vê envolvido em denúncias de corrupção, parece que ela contamina obrigatoriamente a todos os que se dedicam a ela e as elites tradicionais. É um grande serviço prestado aos interesses do grande capital, representado nas políticas econômicas dos governos brasileiros na última década e meia, que consideram que a política é um obstáculo à realização da racionalidade econômica, que mal disfarçam os interesses dos capitais especulativos.
Quando Lula dizia que só seria candidato se fosse para ganhar, assumia uma atitude perigosa. Ganhar de qualquer maneira pode significar mudar para ganhar e não ganhar para mudar. Seu discurso de posse frisava a mudança, mas ao mesmo tempo adotava a política econômica herdada, conforme enunciado na ''Carta aos brasileiros''. Dessa forma, não foi somente a ética na política que sofreu sérios arranhões, entre os dois pilares tradicionais das posições defendidas pelo PT.
A prioridade do social já havia sido sacrificada no altar da estabilidade monetária, do ajuste fiscal, do superávit primário, das mais altas taxas de juros reais do mundo, dos contingenciamentos sistemáticos de recursos dos ministérios sociais. Essa opção estava na base do desgaste do apoio a Lula - comparado com seus índices iniciais - e do governo. Se tivesse escolhido uma saída gradual do modelo econômico, Lula teria podido promover a prioridade das políticas sociais - que uma vez mais são subordinadas aos ministérios econômicos -, teria obtido o apoio suficiente no Congresso, de partidos que não gostariam de estar fora de um governo que estivesse resgatando o Brasil da vergonhosa situação produzida por suas elites tradicionais - a de campeão mundial da injustiça.
Se o governo pode retomar as posições históricas do PT, será a partir do partido, onde se promove uma renovação e pode ser o espaço de reagrupação de todos os petistas descontentes com os rumos assumidos pelo governo e pelo próprio PT. É a hora de o PT mudar para ganhar - ou reconquistar - a confiança dos seus militantes e de tantos que depositaram nele as esperanças da ética na política e da prioridade do social.