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Não em nosso nome
[10/ABR/2005]
O monopólio da violência nas mãos do Estado é uma das características dos estados modernos. Para nós teria sido um avanço significativo, embora seu sucesso para terminar com os grupos armados das oligarquias locais nunca tenha se consolidado - como se vê pela sobrevivência da violência dos bandos organizador pelos latifundiários até hoje. Essa é uma das razões pelas quais nunca chegamos a ter um Estado republicano, com o predomínio dos interesses públicos sobre os privados e os corporativos.
A organização das polícias não teve essa preocupação como objetivo. O espírito com que foram organizadas as forças policiais no Rio de Janeiro foi o de ''proteger'' as elites contra os supostos riscos da chegada dos ''negros'', escravos libertos, mas mantidos na miséria, porque sem acesso à terra no campo. (O análogo do fantasma atual de que ''um dia o morro vai descer'', refletindo a culpabilidade e o pânico que ajuda a justificar a legitimação das arbitrariedades policiais.) Nasceu a polícia assim para proteger os ricos dos pobres, com um selo de classe muito marcado.
A reiteração - a que terminamos nos acostumando - de policiais cometendo crimes contra a população, valendo-se das armas que nós colocamos em suas mãos e da autoridade que lhes conferimos, é uma situação que não pode perdurar. Porque chacinas como essa cometida no Rio de Janeiro, além dos extermínios reiterados de gente pobre realizada na periferia do Rio e de São Paulo - mas que existem em várias outras metrópoles - só são possíveis porque foram criadas as condições - materiais e espirituais - para isso.
Materiais, porque a forma como são recrutados os policiais - os critérios que se utilizam para que alguém entre nas polícias --, os salários que lhes são pagos - que implicitamente significa que se lhes dá a arma e o documento de autoridade, quase como que sugerindo que façam complementação salarial por fora, de maneira ilegal e violenta, por extorsões e outros métodos afins -, a ideologia dessas corporações, produz e reproduz o fenômeno reiterado de policiais cometendo crimes como esses.
Que diante de crimes cometidos por policiais, com armamento pago pelo povo, com credenciais dadas por autoridades públicas, sejam exemplarmente punidos. Mas que sejam igualmente punidos os que os recrutam, os que deveriam formá-los - tão responsáveis por seus atos como eles mesmos.
Além do mais, somos o país mais injusto do mundo, com a pior repartição de tenda do mundo. Recordo que apenas 5 mil famílias, consideradas ''muito ricas'' (0,001% das famílias) possui um patrimônio em torno de 40% do PIB brasileiro. Família rica é considerada aquela com uma renda mensal de mais de R$ 11 mil. São um pouco mais de um milhão de famílias, cuja renda média é de mais de R$ 22 mil. Sua renda é 14 vezes superior à renda média dos brasileiros e 80 vezes superior à linha de pobreza. Desse total, 443 mil famílias se encontram na cidade de São Paulo e 76 mil no Rio de Janeiro. É uma situação de concentração de riqueza em poucas mãos - uma ditadura social - inédita em mundo por si só marcado pela injustiça e pela desigualdade.
A injustiça, a desigualdade, a exclusão, a miséria, o abandono - são um caldo de cultivo para a violência, elevada pela impunidade. Não se trata de dizer que os pobres tenham a ver com a violência, mas sociedades de melhores níveis de vida, possuem, ao mesmo tempo, níveis menores de violência. E outras, tão ou mais pobres do que a nossa, não tem os nível de desigualdade que possui o Brasil.
O clima de violência se apóia também na ideologia repressiva que se difunde cotidianamente pela mídia, fomentada por vozes conservadoras e elitistas, que sistematicamente pedem mais repressão, mais polícia, mais condenações, mais presídios, mais segregação, mais criminalização das populações mais pobres. Esse tipo de gente é co-autor desses crimes, porque prepara o clima de chacinas contra populações pobres - as chamadas ''classes perigosas'' -, aponta sempre para soluções repressivas.
Apesar da indignação expressa na mídia pelas chacinas, pode-se perceber como não é um sentimento generalizado, incomparável com crimes que se dão com habitantes das zonas mais privilegiadas das cidades, que recebem uma atenção mais individualizada da mídia. Como se houvesse um sentimento de alivio ou de apatia, diante de catástrofes em lugares longínquos do universo cotidiano que vivemos.
Mas todos os sinos dobram por todos nós. Nenhuma morte, nenhum sacrifício, nenhuma dor - deveria nos ser alheios. ''Nada do que é humano, me é alheio'' - esse deveria ser o lema de uma sociedade humanista.
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