Um de cada cinco uruguaios estava no dia primeiro de março, desde a meia-noite, nas ruas de Montevidéu, para saudar o começo do governo pelo qual haviam lutado durante décadas. O país de Artigas e de Jorge Battle, o país de Rodney Arismendi, de Raul Sendic, de Líber Seregni, o país de Mario Benedetti, de Eduardo Galeano, de Juan Carlos Onetti, o país de Daniel Viglietti, de Alfredo Zitarrosa, dos Olimarenhos, de Nacha Guevara, de Jorge Drexler, entre tantos outras personalidades notáveis, expressado no Uruguai de Tabará Vasquez e de José Mujica, saiu a comemorar que a partir de agora ''haverá pátria para todos''.
Este pequeno grande país do sul do sul conseguiu finalmente que o mundo olhasse para ele, para sua história republicana, para sua cidadania que impôs a proibição de privatização de empresas públicas - incluída a exploração de água -, por sua vontade soberana, através de sucessivos plebiscitos - com um dos quais derrotaram a ditadura militar. Olharam para seu admirável quadro de direitos sociais - as mulheres com três filhos se aposentavam aos dez anos de trabalho, para cuidar deles -, avassalados nas duas últimas décadas.
Montevidéu segue sendo uma das mais belas cidades da América Latina, com a combinação entre seus imponentes edifícios de um século atrás com as praias agradáveis e convidativas, fazendo que contenha - agora com governo municipal, que a Frente Ampla deve reeleger em maio deste ano, e um governo nacional progressistas - todas as condições de recuperar sua condição de uma das cidades de melhor qualidade de vida do continente. Que possa sair da situação lamentável que os governos conservadores reproduziram - refletida na dramática cena pintada por Galeano, de uma cidade com mais carrinhos de deficientes físicos do que de bebês - para voltar a ser uma das capitais culturais, políticas e sociais do continente.
O momento é particularmente propício para os governos progressistas da América Latina. Nos últimos seis meses, desde a vitória de Hugo Chavez no plebiscito venezuelano, foram se dando uma sucessão de fatos positivos, que aceleram como nunca o processo real de integração continental. Os acordos assinados entre os governos do Brasil e da Venezuela, de alcance estratégico, apontam nessa direção, da mesma forma que aqueles assinados entre Cuba e Venezuela, e entre estes dois paises e a China, que por sua vez também assinou importantes acordos com o novo governo uruguaio. Este, por sua vez, já estabeleceu acordos com o governo da Venezuela na direção da integração das empresas petroleiras do continente - o chamado Petrosul.
O acordo conseguido pelo governo de Néstor Kirchner, de renegociação inédita da dívida do seu país, obtendo uma substancial redução do montante, abriu um precedente fundamental no continente. Dirigentes da Frente Ampla disseram que quando discutiam, em dezembro de 2003, o tema da dívida externa - que vão ter que enfrentar como um dos maiores problemas imediatos do país -, o governo argentino apresentava sua proposta inovadora. E agora, quando assumem a presidência do Uruguai, têm diante de si os resultados positivos dessa proposta.
Talvez a mais importante reunião de todas realizadas até aqui foi a de Lula, Kirchner e Hugo Chavez, no dia seguinte à posse de Tabaré Vasquez. Nela, se aprofundaram como nunca os projetos de integração, programando-se três reuniões de caráter estratégico - a que serão convidados presidentes de outros países, espécies de cúpulas sobre os temas econômicos, sociais e energéticos, com a presença de todos os ministros das respectivas áreas. A primeira delas se realizará na Argentina, a segunda no Brasil e a terceira na Venezuela. Além do acordo de coordenação no enfrentamento das relações com o FMI.
Como disseram Lula e Hugo Chávez no momento da assinatura dos acordos entre o Brasil e a Venezuela, deixamos de olhar para cima, para olharmos para nós mesmos, as soluções dos nossos problemas têm que ser acordadas entre os países do continente. A possibilidade de eleição do candidato do opositor PRD no México, Lopez Obrador, governador do Distrito Federal e de Evo Morales, líder camponês, na Bolívia, nas eleições de 2006, colocam o marco mais favorável ao avanço da integração latino-americana jamais existente na história do continente.
Tudo isso deixou a festa de Montevidéu mais linda ainda. E o fato de que a festa e os acordos se deram no sul do sul, aqui, ao lado, nesse querido pequeno grande país.
Emir Sader, professor da Uerj, escreve aos domingos nesta página