Época de passagem de ano, de votos de um ano melhor - difíceis de sobreviver ao momento de emoção em que são formulados. Porque vivemos em um mundo em que a capacidade tecnológica para criar um mundo mais humano nunca foi tão grande, mas é acompanhada do sentimento de impotência diante de tudo o que nos ameaça - vírus, desemprego, violência, taxa de juros. Vamos nos acostumando com o novo século. Parece longe o tempo em que escrevíamos 19..... Desde que comecei a calcular o tempo, imaginava quanto tempo faltaria para chegar o ano 2000. Parecia um tempo longínquo e uma idade distante.
Fomos nos acostumando a tantas coisas - a mais cotidiana delas, a pior: miséria e o abandono de gente pelas ruas. Estar abandonado, sentir-se abandonado - é a situação mais dura que uma pessoa pode enfrentar. Ao lado disso, fomos nos acostumando à violência cotidiana, aos riscos de circular pelas ruas, pelas praças, pelos espaços públicos.
Este ano mesmo foi um ano em que o mundo foi se acostumando também à guerra. O governo norte-americano, depois da invasão do Iraque, declarou o fim da guerra com a queda do regime de Sadam Hussein, mas a guerra passou a fazer parte do cotidiano daquele país. A invasão e o massacre de Faluja não foram recebidos com a indignação que um ato tão monstruoso quanto esse merecia. Os palestinos continuam a se enfrentar com pedras contra os bombardeios e os disparos mortíferos das tropas de ocupação de Israel, como se isso fizesse parte permanente do cenário mundial. E, no entanto, tudo o que os homens vivem foi construído, de uma ou de outra forma, pelos próprios homens. E assim como foi feito, pode ser desfeito e refeito. Em outras palavras, podemos viver sem guerras, sem miséria e sem abandono.
As guerras são resultado das pretensões expansionistas das potências imperiais, ansiosas para se valer de sua superioridade militar para expandir os territórios para exploração econômica. Os impérios podem ser derrotados até mesmo militarmente, como foi o caso da guerra do Vietnã, em que se somaram a capacidade heróica de resistência dos vietnamitas com o trabalho político. É possível encontrar uma solução para o conflito palestino, com o reconhecimento do direito deles de desfrutar de um Estado como desfrutam os israelenses.
Da mesma forma que é possível sair do modelo econômico neoliberal - que está por detrás tanto das políticas de guerra, quanto da proliferação da miséria e do abandono pelo mundo todo. Quando alguns perguntam sobre onde estaria a alternativa às políticas neoliberais - que o governo atual mantêm, herdadas do governo anterior, devemos nos lembrar que diante da crise de 1929, também se dizia que não havia alternativa às políticas primário exportadoras, que justamente tinham levado os nossos países à pior crise de suas histórias.
A alternativa não foi elaborada teoricamente primeiro, para depois ser colocada em prática. A pergunta sobre onde estaria a alternativa foi sendo respondida na prática, com medidas concretas que foram configurando, aos poucos, uma política radicalmente distinta. Foi seis anos depois da crise que Keynes publicou seu famoso livro - que aparece como fundador de uma nova política -, que terminou por ser uma codificação de políticas já realmente existentes, com teorizações sobre seu conteúdo e suas projeções futuras.
Podemos, sim, mudar o mundo, construir outro mundo possível. Contanto que sejamos capazes de captar os fios que articulam esse mundo, as teias que nos prendem a eles, forjar a vontade de impor os valores humanistas e encontrar as formas de convencer às vítimas das guerras, da miséria e do abandono, que podem ser sujeitos de suas vidas e fazer história. Aí sim teremos um bom 2005. Lutemos por isso, desejando-nos um ano melhor.