O Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) da ONU se preocupa este ano, como novidade, com o problema da diversidade cultural. Os dados confirmam a predominância avassaladora da indústria cultural norte-americana, o elemento de maior força da hegemonia dos Estados Unidos. Não é a superioridade militar, tecnológica, econômica ou política o elemento decisivo na hegemonia norte-americana, mas sua predominância cultural, aquilo que se convencionou chamar de ''
american way of life'', de que a indústria cultural é um dos carros-chefes.
Os dados da ONU se concentram nos movimentos de bilheteria de cinema e apontam para o fato de que de cada 10 pessoas que entram em um cinema, 8,5 verão um filme dos Estados Unidos. Mais além do impressionismo estatístico dos que ficam boquiabertos com esses dados, eles revelam o poderio que a indústria cultural norte-americana adquiriu no marco do poder imperial dos EUA.
De cada 10 dólares gastos nas bilheterias de cinema, 3,5 vão para os EUA, revelando como essa indústria contribui, também economicamente, para a concentração de renda no mundo. Mas o aspecto principal dos dados é o da concentração de poder. Três quartos das imagens produzidas no mundo são de origem estadunidense. Não importa então se os EUA não produzem mais aparelhos de televisão, o que importa é produzir as imagens difundidas por esses aparatos, que permitem o poder sobre mentes e corações de milhões de pessoas.
Da lista dos filmes que chegaram a arrecadar mais de 10 milhões de dólares de bilheteria fora dos EUA, até abril deste ano, os 43 primeiros são norte-americanos. Do total da lista de 282 filmes, apenas cinco não são dos EUA. No Brasil, da lista de 10 filmes de maior bilheteria, o único não norte-americano é Dona Flor e seus dois maridos. Os outros vêm dos EUA.
Os filmes norte-americanos se pagam no mercado dos EUA e, quando saem, podem ser vendidos a preços muito menores do que os filmes do país local, competindo em superioridade de condições. Além disso, em um mecanismo reproduzido aqui de forma sistemática, quando um diretor norte-americano resolve filmar uma película, essa decisão se torna notícia reproduzida pelo mundo afora. Quando ele escolhe os atores e atrizes, se volta a falar do filme. O mesmo se repete quando começa a filmagem, quando termina, quando o filme é lançado, tudo acompanhado de making offs pelas redes de televisão dos EUA e reproduzido pelas televisões locais. Quando o filme chega a um país como o Brasil, sua propaganda já foi completamente realizada, não precisando de muito mais de tudo o que foi feito nos meses e às vezes anos anteriores.
Hollywood, que foi o maior instrumento cultural da ascensão e consolidação da hegemonia ideológica dos EUA no século passado, continua a projetar critérios éticos e estéticos do que é bom e do que é belo, escrevendo e reescrevendo a história - o que são os filmes de far west senão a versão ''branca'' da conquista do Oeste e da dizimação das populações indígenas nos EUA? - conforme os cânones norte-americanos.
O outro eixo da hegemonia norte-americana, conectada com a predominância no plano das imagens e da mídia globalizada, é a mercantilização da vida, expressa de forma clara na proliferação dos shopping centers. A luta contra a forma de vida em que tudo é mercadoria, tudo se vende e tudo se compra, supõe a construção de formas de vida alternativas, de socialização pela solidariedade e não pela competitividade, pela justiça e não pela lei de custo e benefício. Supõe uma sociedade governada pelo humanismo e pela justiça social e cultural.